Recebi uma carta, como antigamente, no envelope e endereçada a mim. O remetente era o Sabin, dizendo que meus exames revelaram que glicemia, colesterol, triglicerídeos e até os glúteos estavam além da média – e isso, ironicamente, não era motivo para comemoração. Meu corpo, que resistiu bravamente a anos de sedentarismo, estava colapsando. A sobrevida agora depende de medicação, a menos que eu fizesse as pazes com a academia. Nossa relação é antiga e cheia de rusgas, sabemos que não somos os melhores amigos, temos nossas diferenças, mas eu preciso mostrar que estou disposto à rendição mesmo eu não sendo o errado desta história.
A academia sempre me pareceu um antro de higienização social e exibicionismo, um lugar onde não me sinto em casa sendo o único careca barrigudo – até os idosos têm mais preparo físico que eu. Mas o dane-se venceu. Eu precisava demonstrar disposição para a rendição. Minha prova de desculpas começou com um sacrifício matinal: estou acordando às 6h e indo a pé, com poucas ideias para o mundo. Evito sorrisos, bom-dias e qualquer enrolação com equipamentos ou celular. Aliás, esse horário é perfeito, pois não é o horário dos herdeiros; só tem trabalhador e idoso, gente como a gente. O próprio personal trainer me lembra alguém que já cruzei no ônibus.
Estou me adaptando e espero manter o ritmo. Afinal, paguei adiantado – uma tática para não desistir, já que detesto gastar dinheiro à toa, seja com comida ruim ou com algo que não uso.
Muitos se identificam com a minha história: visitam o médico, fazem um exame e descobrem uma vida degenerada, regada a açúcar, sal, álcool, farinha de trigo e aquela carne assada gordurosa. Deveria haver uma vaga no céu para quem leva uma vida fitness, adiando a morte. Se eu chegar lá e renascer magro, espero ao menos ter o cabelo dos meus 23 anos; caso contrário, será uma injustiça que não estou pronto para aceitar. E se eu não for para o céu? Não é que eu erre tanto, mas deixei rastros de pecado por aí. Alguns eu perdoei, outros eu não quero perdoar. Eu durmo bem com isso. Inclusive, o sono melhorou. Meu corpo dói menos. Sobre o ronco, minha esposa não comenta, só me deseja um pouco de sorriso no rosto às seis da matina.
A balança que me faz acordar cedo tem dois pesos: de um lado, os remédios para diabete e pressão; do outro, eu na academia. Não pretendo tomar remédios antes da hora. Cada coisa no seu tempo, isso vale para a losartana e para o Viagra.
Fui.
De hoje está pago.
Thiago Maroca é escritor, cineasta e chefe escoteiro. Atualmente, começou um treinamento de alta performance para fazer o Ironman e classificar para as Olimpíadas de Los Angeles.
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