Uma amiga querida me fez uma declaração que me deixou pensativo:
“Não venha me falar de pessoas das quais eu não tenho mais vínculo.”
Refleti sobre a frase e se eu agia da mesma forma. A resposta é um categórico “não”. Eu quero saber da vida de todo mundo. Podem me chamar de fofoqueiro, mas aposto que você também dá uma espiada na vida de alguém do passado. Na verdade, revisitar o passado me serve como um parâmetro de comparação com o meu “eu” atual e minhas atitudes, pensando em como eu agiria hoje se as mesmas situações ocorressem.
Tudo não passa de hipóteses, assim como perdemos quase duas horas por dia ensaiando diálogos que jamais acontecerão, na vã tentativa de consertar algo que foi dito ou ouvido no passado. Lembro do passado e o uso para corrigir o presente; viver nele, porém, é tolice. Às vezes, gosto de mergulhar no meu catálogo de fotos, revendo quem eu era e com quem eu estava há dez anos. Há pessoas que não vejo há mais de 15 anos pessoalmente, mas com quem converso mensalmente, como se fôssemos vizinhos. É estranho, mas chego a normalizar a vida virtual a ponto de esquecer até a morte de alguns.
O Facebook (que alguns já consideram finado, mas eu ainda uso) me envia lembranças por e-mail, revivendo momentos de anos atrás. Tenho amizades de pessoas que nem lembro de onde conheço, fruto daquela febre inicial de adicionar quem quer que fosse que cumprimentássemos em um churrasco, vendo o número de amigos crescer na rede social. Nos últimos anos, eventos como fake news, divergências políticas, religião e a COVID-19 foram os estopins para o estremecimento e fim de muitas dessas amizades virtuais. O meu eu de hoje não se arrepende de ter debatido minha opinião em grupos virtuais. Eu, que ingenuamente achava que todos eram legais, aprendi muito sobre a importância de ser mais reservado na vida pública.
Eu já tive banda, fui candidato a vereador, trabalhei com fotografia de moda, fiz filme, escrevi livros e crônicas, me filiei e me desfiliiei de partido, casei e separei, criei gato e depois cachorro, deixei a barba crescer, viajei para diversos países, joguei multa em guarda de trânsito, roubei um cone, me vesti de mulher no carnaval, beijei um homem para uma cena de filme, quase apanhei de “gente de bem”, fiz “gato” de água, peguei dois reais no chão, tive um filho, emprestei meu nome para parente, emprestei dinheiro e não recebi de volta, quase entrei numa briga com um valentão (mesmo sabendo que perderia os dentes) e chamei político da cidade de ladrão sem ter provas (só na intuição, mas depois acertei). Mas nunca, nunca caí de bêbado.
Se vierem me falar de pessoas das quais eu não tenho vínculo, não me importa quem seja, eu quero saber sim. A fofoca guardada não serve para nada.
Beijos e paz. Fui.
Thiago Maroca teve seu DRT de jornalista negado, mas continua acreditando no poder da informação. É sociólogo, escoteiro e pai do Théo.
Manda um pix: thiagomaroca@gmail.com



