Quando os tambores ecoam e as ruas são tomadas, o Brasil não está apenas entrando em festa. Estamos, coletivamente, entrando em um estado alterado de consciência social. O Carnaval, muitas vezes reduzido a uma celebração profana ou a um mero produto turístico, é, sob a ótica da psicanálise, o grande divã a céu aberto.
Freud, em O Mal-Estar na Civilização, postulou que a vida em sociedade exige um sacrifício constante: trocamos uma parcela de nossa liberdade instintiva e de nossa agressividade por um pouco de segurança e ordem. Vivemos o ano inteiro sob o contrato social, reprimindo desejos, engolindo impulsos e vestindo a armadura da civilidade (couraças). Mas o que acontece quando a folia toca e esse contrato é temporariamente suspenso? O que ocorre quando a civilização tira férias?
Durante a maior parte do ano, somos seres de linguagem, definidos pelo que falamos, pelos contratos que assinamos, pelas regras que obedecemos. O corpo é, muitas vezes, apenas um suporte biológico que nos carrega para reuniões ou para a frente de telas. No Carnaval, a equação se inverte. O Verbo cala e a Carne fala.
É o retorno triunfante da pulsão (Trieb). A pulsão não é instinto, o instinto é biológico e fixo; a pulsão é uma força constante, fronteiriça entre o somático e o psíquico (carne e alma), que exige satisfação. No Carnaval, o corpo deixa de ser funcional para ser pulsional.
Talvez o conceito mais paradoxal e rico desta época seja o da fantasia. No senso comum, fantasiar é sinônimo de mentir, de fingir ser o que não se é, de escapar da “dura realidade”. A psicanálise, porém, inverte essa lógica de forma radical.
Jacques Lacan nos ensinou que a verdade tem estrutura de ficção. Ou seja, a nossa “realidade” cotidiana, aquela do escritório, do terno e gravata, do sorriso polido no elevador, é que é a verdadeira construção artificial. Essa “persona” (que em latim significa máscara) é a defesa que erguemos para sermos aceitos pelo Outro social.
No Carnaval, quando vestimos a fantasia, não estamos nos escondendo. Pelo contrário: estamos, finalmente, nos mostrando. Oscar Wilde, que possuía uma intuição afiada, disse: “Dê uma máscara a um homem e ele lhe dirá a verdade”.
A fantasia de Carnaval é a materialização do fantasma (o conceito psicanalítico de phantasme). O fantasma é a janela através da qual o sujeito olha o mundo e encena seu desejo. Estamos vendo o Retorno do Recalcado.
O recalcado (Verdrängung) é tudo aquilo que o sujeito teve que expulsar da consciência porque era incompatível com a sua autoimagem moral. Mas o recalcado nunca morre; ele insiste, ele pulsa no porão do inconsciente, esperando uma fresta para sair. “Não era eu”, dirá ele na Quarta-Feira de Cinzas. Mas a psicanálise sabe: era ele, mais do que nunca.
Outro fenômeno crucial para entender a euforia carnavalesca é o enfraquecimento temporário do Supereu (ou Superego). O Supereu é a nossa instância moral interna, o herdeiro das proibições parentais e sociais. É a voz que diz “não faça”, “não pode”, “o que os outros vão pensar?”. Ele é o guardião da culpa.
O Carnaval opera através de um mecanismo de massa que dilui essa instância individual. Freud, em Psicologia das Massas e Análise do Eu, explica como, na multidão, o indivíduo perde suas inibições pessoais e se funde em um corpo coletivo. O álcool, a música repetitiva (que induz ao transe), o calor e o anonimato da multidão funcionam como solventes do Supereu. A responsabilidade individual diminui. O “eu” se dissolve no “nós”.
Contudo, é preciso não romantizar excessivamente a folia. Há uma armadilha no coração do Carnaval: a promessa do Gozo (Jouissance) absoluto. A propaganda da festa, a cultura e a música vendem a ideia de que “tudo é permitido” e de que a felicidade plena é possível. Vende-se a ideia da completude.
Olhe para a sua fantasia, ou para a ausência dela, o que também é uma escolha sintomática. O que ela diz sobre o que você silencia? Que parte do seu desejo está pedindo passagem através do riso, da dança ou do exagero?
A psicanálise é a ética da falta. O desejo humano é motorizado pela falta, não pela posse. Desejamos aquilo que não temos. O problema é que, assim que obtemos o objeto desejado, ele perde o brilho, e o desejo desliza para o próximo objeto.
Vemos foliões em uma busca, muitas vezes angustiada, tentando capturar algo que sempre escapa. Há uma compulsão à repetição. Por que a festa nunca parece suficiente?
O buraco no Real não pode ser preenchido pelo Simbólico da festa.
O que buscamos no Carnaval, em última análise, é a fusão, a não-separação, o retorno a um estado mítico de satisfação total (que Freud remete à primeira experiência de satisfação do bebê).
E assim chegamos à inevitável Quarta-Feira de Cinzas. Por que ela é tão melancólica? Por que a tristeza do fim do Carnaval parece mais profunda do que o fim de um simples fim de semana?
A “depressão pós-Carnaval” é o sintoma do choque radical entre o Princípio do Prazer e o Princípio de Realidade. Durante dias, o princípio do prazer reinou soberano: a busca imediata pela satisfação, a negação do tempo e das consequências. A Quarta-Feira de Cinzas é a reimplantação da Lei. O Supereu acorda de ressaca, e geralmente acorda vingativo, trazendo a culpa e a vergonha pelos excessos cometidos. A ordem.
A saúde mental não reside em ser puramente civilizado, nem puramente selvagem, mas na capacidade de transitar entre esses mundos sem se perder em nenhum deles.
O Carnaval rompe temporariamente as couraças pela euforia física. Mas só a análise sustenta a mudança: compreendendo a origem das defesas, dissolvemos bloqueios profundamente, integrando o prazer vital à rotina, e não apenas como um breve espasmo anual.
Sempre é tempo de desatar nós e superar suas máscaras!
Prof. Dr. William Figueiredo é filósofo, psicanalista e educador físico. Pós-doutor em Psicologia pela Universidade Federal de Uberlândia e doutor em Ciências da Religião. Especialista em Psicopatologia e Bem-Estar Social pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa, atua com atendimento clínico online, supervisão e assessoria em desenvolvimento humano e educacional. Atua como professor colaborador na Pós-graduação da Universidade Metodista de São Paulo. Ministra palestras, formações e workshops voltados à escuta qualificada, saúde mental e processos educativos com ênfase em: Psicanálise, Neuroeducação, Aprendizagem Tangencial, IA e Educação Socioemocional.
Sentiu que este texto conversa com você?
A jornada analítica começa com uma primeira escuta. Se você está pronto para ir além dos sintomas e entender as raízes do seu sofrimento, agende uma conversa preliminar de acolhimento (online ou presencial).
www.3eb.com.br
contato@3eb.com.br
@trieb_psicanalise




