A neurociência do “obrigatoriamente feliz” e como o reencontro familiar pode reativar traumas antigos em minutos. Um guia para sobreviver a dezembro mantendo a saúde mental.
Estamos em dezembro. As vitrines brilham, as confraternizações da empresa se multiplicam e as redes sociais são inundadas por fotos de famílias sorridentes em pijamas combinando. A mensagem cultural é clara, para muitos, opressiva: “Você tem a obrigação de ser feliz agora”.
No entanto, se pudéssemos fazer uma radiografia emocional dos consultórios de psicanálise nesta semana, veríamos algo muito diferente.
Dezembro não é apenas o mês das festas; é o mês do pico de ansiedade, da melancolia silenciosa e da sensação de inadequação. Segundo uma pesquisa (2021) da Isma-Brasil (Internacional Stress Management Association), o nível de estresse do brasileiro sobe, em média, 75% no final do ano.
Como sempre, gosto de trazer uma metáfora para nossas reflexões.
O Grinch narra a história de uma criatura verde, cínica e solitária que vive no topo de uma montanha e despreza o Natal. Irritado com as celebrações barulhentas e consumistas dos habitantes da Quemlândia, o Grinch trama um plano maligno para “roubar” a data festiva: ele decide invadir as casas e levar todos os presentes, comidas e decorações. O Grinch é um personagem fictício criado pelo autor infantil Dr. Seuss (Theodor Geisel). Ele apareceu pela primeira vez no livro de 1957 intitulado “How the Grinch Stole Christmas!” (Como o Grinch Roubou o Natal). No Natal de 2000 a Universal Pictures lançou o filme homônimo, protagonizado pelo ator Jim Carrey.
Se você sente um peso no peito cada vez que ouve uma música de Natal, ou se a perspectiva da ceia em família lhe causa mais taquicardia do que alegria, saiba: você não é um “Grinch”. Você está reagindo fisiológica e psiquicamente a um fenômeno, a Imposição da Felicidade. Proponho olharmos para o que acontece “atrás da cortina” do seu cérebro durante este período.
Do ponto de vista psicanalítico, vivemos sob o imperativo do Superego que ordena: “Goze! Divirta-se! Seja grato!”. O problema é que a felicidade é uma emoção espontânea, não uma tarefa a ser cumprida. Quando a sociedade transforma a alegria em uma obrigação moral, qualquer sentimento de tristeza, cansaço ou luto se torna uma “falha”.
Neurobiologicamente, isso cria um curto-circuito. Ao perceber que o seu estado interno (cansado/triste) não corresponde à expectativa externa (eufórico/festivo), seu cérebro aciona a amígdala cerebral, o centro de detecção de ameaças.
Você entra em um estado de dissonância cognitiva. O resultado não é a alegria forçada, mas a liberação de cortisol (o hormônio do estresse). Você se sente exausto não apenas porque trabalhou muito o ano todo, mas porque está gastando uma energia imensa tentando sustentar uma “máscara” de celebração que não condiz com sua realidade interna.
Além da pressão social, existe o fator familiar. O Natal é, por excelência, o ritual de retorno ao lar. Mas, para a psicanálise, retornar ao lar físico significa, muitas vezes, retornar a posições psíquicas antigas.
Você pode ser uma executiva de sucesso, um pai de família respeitado ou uma doutora renomada. Mas, ao cruzar a porta da casa dos seus pais, algo acontece. Bastam cinco minutos e um comentário crítico da sua mãe sobre o seu peso, ou uma provocação política do seu tio, para que você se sinta, emocionalmente, como uma criança de 12 anos novamente.
Chamamos isso de regressão.
O ambiente familiar é o palco onde nossos primeiros traumas e defesas foram construídos. Estar lá reativa circuitos neurais antigos. As dinâmicas de competição entre irmãos, a busca pela aprovação dos pais, os silêncios constrangedores… tudo volta à tona.
Muitas pessoas chegam a janeiro destruídas não porque comeram demais, mas porque passaram dias “lutando” inconscientemente contra fantasmas do passado, tentando provar seu valor para pessoas que, talvez, nunca mudem.
Observo também um terceiro fator de angústia: o esvaziamento do ritual.
Historicamente, rituais de fim de ciclo serviam para elaborar o luto pelo que passou e renovar a esperança (não o otimismo tolo, mas a esperança ativa) pelo que virá. Eram momentos de conexão com o sagrado ou com o transcendente.
Hoje, substituímos o ritual pelo consumo e pela performance. A troca de presentes virou uma fonte de ansiedade financeira. O encontro virou uma oportunidade de “postar” a foto perfeita.
Quando retiramos o sentido simbólico do Natal, sobra apenas a logística. E a logística, sem sentido, é apenas trabalho. Isso gera um vazio existencial profundo, aquela sensação de “é só isso?” que ataca no domingo à noite pós-ceia.
Como sobreviver a isso? A resposta passa pelo que a psicanálise chama de Castração, ou seja, aceitar os limites da realidade.
A ceia não será perfeita. Alguém vai falar bobagem. Você vai se cansar. Aceitar que o Natal será “apenas possível”, e não “mágico”, retira o peso da perfeição, Você não é obrigado a participar de tudo. Dizer “não” a um convite para preservar sua saúde mental não é egoísmo, é autopreservação. Se você perdeu alguém este ano, ou se 2025 foi difícil, você tem o direito de não estar eufórico. Acolher a sua tristeza é muito mais saudável para o seu cérebro do que tentar fingi-la.
E, principalmente, entenda que o final do ano não é um tribunal. Você não precisa ter “vencido” em 2025 para merecer descansar.
Se a angústia destas datas está muito pesada, talvez o “Papai Noel” não traga a solução. Talvez o presente que você realmente precise dar a si mesmo seja um espaço de escuta, onde você possa retirar a máscara de “feliz” e ser, finalmente, apenas humano. O Grinch ao final descobre que é possível a convivência, seu coração até cresce. Se você souber colocar os limites certos, é possível lidar com essa avalanche de afetos, e sobreviver para o próximo ano.
É sempre tempo de desatar nós e acolher o Grinch que há em você!
Dados: https://ismabrasil.com.br/
Prof. Dr. William Figueiredo é filósofo, psicanalista e educador físico. Pós-doutor em Psicologia pela Universidade Federal de Uberlândia e doutor em Ciências da Religião. Especialista em Psicopatologia e Bem-Estar Social pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa, atua com atendimento clínico online, supervisão e assessoria em desenvolvimento humano e educacional. Atua como professor colaborador na Pós-graduação da Universidade Metodista de São Paulo. Ministra palestras, formações e workshops voltados à escuta qualificada, saúde mental e processos educativos com ênfase em: Psicanálise, Neuroeducação, Aprendizagem Tangencial, IA e Educação Socioemocional.
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