O calendário para, mas o seu inconsciente não. Entenda, por que suspender a terapia justamente no “mês da família” pode custar caro à sua saúde emocional em 2026.
Chegamos à segunda quinzena de dezembro. O cenário é conhecido: as agendas corporativas entram em frenesi para fechar balanços, o trânsito nas grandes cidades se torna um teste de paciência, as lojas lotam e a lista de “pendências” parece se multiplicar organicamente. É o momento do ano em que a exaustão física e mental atinge seu pico.
Neste cenário de saturação, surge um desejo quase instintivo, uma fantasia de “pausa total”. Queremos férias do trabalho, da dieta, dos horários rígidos, das notícias e das obrigações. E, frequentemente, essa fantasia de desligamento recai sobre o espaço terapêutico.
Nos consultórios de psicologia e psicanálise, é o momento em que ouvimos a clássica frase: “Doutor, vou parar agora. A correria está grande, vou viajar, preciso relaxar a cabeça. Retomamos depois do Carnaval.”
Como psicanalista, acolho o desejo de descanso. O cansaço é real e legítimo. No entanto, existe um equívoco técnico perigoso nessa decisão, baseado em uma premissa falsa: a crença de que os seus conflitos internos também entrarão em recesso coletivo.
A verdade clínica é o oposto: O inconsciente não tira férias.
Pelo contrário, dezembro não é o mês de “desligar” o psiquismo. Estatisticamente e clinicamente, é o mês em que o inconsciente mais trabalha e, se não for escutado, é o momento em que ele mais trabalha contra nós.
Existe uma romantização cultural das festas de fim de ano que esconde uma realidade psíquica dura: dezembro é um “campo minado” emocional. Para a Psicopatologia Fenomenológica, que estuda como vivenciamos o mundo, este período altera nossa percepção de tempo e de sentido, criando uma pressão única sobre o sujeito.
Dizer “vou parar a terapia para descansar” neste contexto é assumir que lidar com tudo isso sozinho será mais “descansado” do que ter um suporte profissional. É uma conta que não fecha.
A neurociência ajuda a entender esse erro. O retorno ambiente “familiar” está codificado em nossas redes neurais mais antigas e profundas. Estar lá reativa circuitos de memória implícita e padrões de resposta emocional (medo, busca de aprovação, submissão ou raiva) que foram formados na infância. Sua amígdala cerebral (o centro de detecção de ameaças e emoções) reconhece o padrão e “sequestra” o seu córtex pré-frontal (sua racionalidade adulta).
A terapia semanal, neste período, atua como uma âncora de realidade. O analista é o “terceiro elemento” que ajuda você a sair dessa fusão emocional, lembrando ao seu psiquismo que você não é mais aquela criança impotente, e que hoje você tem recursos adultos para lidar com aquelas situações.
Na psicanálise lacaniana, temos uma distinção fundamental entre Falar e Atuar (Acting Out ou Passagem ao Ato).
O ser humano é uma máquina de processar tensões. Quando a angústia sobe, ela precisa sair por algum lugar. A via mais saudável é a fala (a simbolização). Quando falamos, damos nome ao monstro, e ele diminui de tamanho.
Quando a via da fala é interrompida (porque você “tirou férias” da terapia), a angústia desaparece. Ela busca outra saída: o corpo ou o ato impulsivo.
Manter a análise ativa durante as festas é manter a “válvula de escape” correta funcionando. É o lugar onde você pode dizer “Eu odeio ter que ir na casa da minha mãe” ou “Estou decepcionado com meu ano”, para que não precise atuar esse ódio ou essa decepção através de uma úlcera, de uma bebedeira ou de uma separação impulsiva.
A raiz do desejo de “parar” está na confusão entre esforço cognitivo e esforço emocional.
A análise é o avesso da vida cotidiana. Na vida lá fora, você usa máscaras: a máscara do profissional competente, do pai amoroso, do filho grato. Sustentar essas máscaras cansa. A análise é o único lugar do mundo onde você pode depor as armas. É o lugar do “desvelamento” psíquico.
Neste sentido, a sessão de terapia no fim do ano funciona para te “aterrar”. Ela descarrega a tensão acumulada na semana para que você não entre em curto-circuito. Encarar a terapia como “mais uma obrigação” na agenda é um erro de perspectiva; ela é o suporte que torna as outras obrigações suportáveis.
“Mas doutor, eu vou viajar”. Pode ir, uma, duas semanas, mas volte!
Vivemos tempos digitais. A barreira geográfica caiu. A grande maioria dos tratamentos hoje permite a modalidade híbrida ou online.
Tenho pacientes que atendo de quartos de hotel, de varandas na casa de praia, ou até de dentro do carro estacionado em uma rua tranquila longe da confusão da casa dos parentes. Eles reservam aqueles minutos sagrados para se reconectarem consigo mesmos.
Eles percebem que, ao fazerem isso, as férias reais (o descanso, o lazer) se tornam muito mais proveitosas, porque a cabeça não está ruminando problemas. Eles garantem que a bagagem emocional não pese mais que a mala de viagem.
Minha proposta, como especialista em Bem-estar Social e Saúde Mental, é preventiva.
Se você já é paciente, não pare. Negocie horários, faça online, mas não solte a mão do seu processo agora. Use a análise para atravessar a tempestade.
Se você não é paciente e está pensando em “deixar para começar quando a vida acalmar”, saiba que a vida não se acalma sozinha. A vida acalma quando mudamos a forma como reagimos a ela. Começar agora é preparar o terreno. É garantido que você entrará em 2026 não apenas com “metas” escritas num papel, mas com a estrutura emocional necessária para bancar os seus desejos.
Não deixe sua saúde mental para depois do Carnaval. Seus sintomas, suas angústias e seus traumas não vão esperar até lá. E você também não deveria.
É sempre tempo de separar um tempinho para desatar nós!
Prof. Dr. William Figueiredo é filósofo, psicanalista e educador físico. Pós-doutor em Psicologia pela Universidade Federal de Uberlândia e doutor em Ciências da Religião. Especialista em Psicopatologia e Bem-Estar Social pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa, atua com atendimento clínico online, supervisão e assessoria em desenvolvimento humano e educacional. Atua como professor colaborador na Pós-graduação da Universidade Metodista de São Paulo. Ministra palestras, formações e workshops voltados à escuta qualificada, saúde mental e processos educativos com ênfase em: Psicanálise, Neuroeducação, Aprendizagem Tangencial, IA e Educação Socioemocional.
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A jornada analítica começa com uma primeira escuta. Se você está pronto para ir além dos sintomas e entender as raízes do seu sofrimento, agende uma conversa preliminar de acolhimento (online ou presencial).
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