A Gramática do Desencontro: A Hermenêutica como Arte de Desatar Nós

Vivemos em uma era de saturação comunicativa, mas de profunda anemia de compreensão. Nunca falamos tanto, escrevemos tanto e compartilhamos tanto; no entanto, a sensação predominante é a de que estamos irremediavelmente presos em “nós” relacionais e sociais. O outro tornou-se um enigma irritante ou, pior, um espelho de nossas próprias certezas. Diante desse cenário de polarização e surdez seletiva, é necessário resgatar uma ferramenta milenar, muitas vezes confinada as faculdades de filosofia, mas que é, em essência, a chave para a convivência humana: a Hermenêutica.

Etimologicamente ligada a Hermes, o deus grego mensageiro que traduzia a vontade divina para a linguagem dos mortais, a hermenêutica é a arte da interpretação. Assim como Hermes, Exu é o mensageiro dinâmico entre os homens e os deuses. Ele detém o domínio das encruzilhadas, simbolizando o encontro de caminhos e o fluxo de informações. Sem sua intervenção, o diálogo com o sagrado é impossível; ele é o intérprete universal que traduz e transporta as súplicas, oferendas etc. É o que queremos provocar com conceito de fusão de horizontes. As encruzilhadas e os nós participam da mesma cadeia significante.

No cotidiano, tendemos a acreditar que o mundo é feito de “fatos” objetivos e que os conflitos surgem porque alguém está mentindo ou equivocado sobre esses fatos. Contudo, a tradição hermenêutica, especialmente através do pensamento de Paul Ricoeur e Hans-Georg Gadamer, nos ensina que não habitamos um mundo de fatos puros, mas um mundo de significados. Um conflito não é apenas um erro de informação; é um “conflito de interpretações”.

Quando olhamos para um nó, nossa primeira reação é tentar puxar as pontas com força. Na comunicação, isso equivale a elevar o tom de voz ou repetir os mesmos argumentos. O resultado? O nó se aperta. Para desatá-lo, a fenomenologia nos sugere um movimento inverso: a suspensão do juízo (a epoché). Antes de decidir se o outro está certo ou errado, precisamos entender como ele chegou àquela conclusão.

Gadamer nos oferece o conceito de “Horizonte”. Cada indivíduo possui um horizonte de visão limitado por sua história pessoal, seus traumas, sua cultura e sua linguagem. Quando duas pessoas discutem, o que temos são dois horizontes tentando ocupar o mesmo espaço. O “nó” surge quando acreditamos que o nosso horizonte é o limite do mundo. Desatar esse nó exige o que a hermenêutica chama de “Fusão de Horizontes” (Horizontverschmelzung). Não se trata de abrir mão da sua verdade, mas de expandi-la para que ela possa conter, também, a perspectiva do outro.

Observamos, a partir da Psicopatologia Fenomenológica, que muitos dos sofrimentos psíquicos contemporâneos nascem de uma “crise de sentido”. O sintoma, muitas vezes, é um texto que o sujeito não consegue ler. Quando um paciente chega ao consultório com um “nó” na garganta ou uma angústia sem nome, ele está, na verdade, diante de uma falha hermenêutica: sua vida tornou-se um texto ilegível para ele mesmo.

Nesse ponto, a hermenêutica encontra a clínica. Paul Ricoeur, em sua obra O Si-mesmo como um Outro, nos lembra que a nossa identidade é narrativa. Nós somos a história que contamos sobre nós mesmos. Se a narrativa está travada em um trauma ou em uma interpretação rígida, o sujeito adoece. “Desatar nós”, portanto, é um exercício de reautoria. É permitir que o indivíduo interprete seu passado não como um destino imutável, mas como uma obra aberta que ainda pode ganhar novos capítulos.

Muitas vezes, um conflito doméstico por um motivo fútil esconde uma busca por reconhecimento, por um lugar de pertencimento ou por um rito de passagem que nunca aconteceu, e que agora pode ganhar uma nova história.

Quando ignoramos essa profundidade simbólica e tentamos resolver conflitos apenas de forma racional ou técnica, falhamos. Um nó emocional raramente se desfaz com lógica; ele se desfaz com presença fenomenológica. É preciso “estar-com” o outro, permitindo que o sagrado da alteridade se manifeste.

Michel Foucault, com sua arqueologia do saber, nos alertou sobre como as relações de poder moldam o que pode ou não ser dito. Muitas vezes, o nó de uma relação é alimentado por silêncios impostos, por discursos de autoridade ou por uma “normalidade” opressora. Desatar esses nós exige que questionemos: “Quem está falando em mim agora? Sou eu ou são as instituições, os manuais de diagnóstico e as expectativas sociais?”.

A hermenêutica crítica nos convida a desconfiar das interpretações fáceis. Ela nos pede para ser “detetives do sentido”. Ao aplicar isso à vida pública, percebemos que a polarização política, por exemplo, é uma patologia hermenêutica onde o outro é reduzido a um rótulo, um “texto” pré-julgado que sequer nos damos ao trabalho de ler.

Desatar nós é, fundamentalmente, um ato de tradução. Como dizia Ricoeur, a “hospitalidade linguística” é o prazer de habitar a língua do outro. No cotidiano, isso significa ter a generosidade de traduzir o grito do outro como um pedido de socorro, e a raiva do outro como uma ferida não cicatrizada. Como comenta o autor devemos ir ao encontro do impasse em que o intraduzível e o traduzível se chocam.

Não é um processo indolor. Exige paciência, tempo (o cronos que precisa virar kairós, o tempo da oportunidade) e, acima de tudo, a coragem de não ter a última palavra. O objetivo da hermenêutica não é chegar a uma verdade absoluta e estática, mas manter o diálogo vivo.

A filosofia e a psicopatologia não servem apenas para explicar o mundo, mas para torná-lo habitável. No fim das contas, a vida humana é um emaranhado de fios. Podemos passar a existência reclamando destas encruzilhadas, ou podemos aprender a arte sutil de tocar com cuidado, afrouxando as tensões até que a corda, outrora curta e rígida, torne-se um laço, não de prisão, mas de vínculo.

É sempre tempo de desatar nós!

Prof. Dr. William Figueiredo é filósofo, psicanalista e educador físico. Pós-doutor em Psicologia pela Universidade Federal de Uberlândia e doutor em Ciências da Religião. Especialista em Psicopatologia e Bem-Estar Social pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa, atua com atendimento clínico online, supervisão e assessoria em desenvolvimento humano e educacional. Atua como professor colaborador na Pós-graduação da Universidade Metodista de São Paulo. Ministra palestras, formações e workshops voltados à escuta qualificada, saúde mental e processos educativos com ênfase em: Psicanálise, Neuroeducação, Aprendizagem Tangencial, IA e Educação Socioemocional.
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