A Ditadura dos Assistentes Virtuais

Começo de ano é tempo de faxina, não só no guarda-roupa, mas também nas assinaturas desnecessárias do cartão de crédito – aqueles “serviços” que consomem um pouquinho todo mês e que, no final, poderiam ter se transformado em algo que você realmente desejava.
Para cancelar um desses penduricalhos, recorremos ao celular e à “promessa” de agilidade e fim das filas, entrando em contato com a famigerada assistente virtual. Um robô preguiçoso do outro lado da linha, disparando mensagens automáticas sem o menor esforço para ler o que escrevemos. Chamam isso de inteligência artificial, mas a inteligência, eu confesso, me causa sérias dúvidas.
As empresas investem cada vez mais nesse mundo virtual. Já é possível pedir empréstimos, ter consultas dermatológicas, aprender crochê e até rastrear seus passos para descobrir quem levou aquela multa de farol vermelho na quinta-feira às 11 da manhã. A regra é “letrar-se” no digital para não passar vexame. De tanto consumir vídeos e fotos, ironicamente, parece que diminuímos nossa capacidade de interpretar um texto simples. Vide a “moda” de fazer perguntas sem o ponto de interrogação no final. Consegue entender
Para dar um toque “humano” ao serviço, as empresas criam personagens com nomes como Théo, Gina, Malu, Roberta, Tito… A intenção é fazer você acreditar que existe alguém realmente preocupado em resolver seu problema. Mas, na verdade, é apenas uma armadilha. Antes, a gente ouvia música na espera; agora, ficamos presos em um labirinto de opções para saber o que fazer. Se fossem de verdade, nos entenderiam com uma frase. Mas não há inteligência artificial que dê sentido a expressões como “a porca torce o rabo” ou “enfiam o garfo no osso da rabada”, muito menos para trocar as “rebinbocas da parafuseta”.
A onda de “gourmetização” impulsionada pelas grandes redes de fast food simplificou o ato de pedir, comer e pagar. Para não ficarem para trás, até os comerciantes locais aderiram à modernidade do QR Code. Não consigo pedir uma pizza sem cebola ou um açaí com banana e mel; não há mais cardápio impresso, é tudo feito “para ver no iPhone”. Até para consultar uma conta de luz vencida, você entra no mundo virtual. A cobrança e o corte de energia se modernizaram e são automáticos, mas a revisão do consumo de Watts, ah, essa ainda é a moda manivela.
Diante de tanta tecnologia, resta a pergunta: haverá lugar para algum humano no atendimento? Meu receio é que o novo inferno seja morrer e virar assistente virtual.
Fui.
Beijo.

Thiago Maroca é escritor, professor e cineasta. Membro da Academia Valparaisense de Letras. Mestre em Educação, chefe escoteiro e pai do Théo.
Manda um oi: thiagomaroca@gmail.com / @thiagomaroca

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