A Desigualdade Social e a Infância Esquecida no Natal

“Bate o sino pequenino sino de Belém. Já nasceu Deus menino para o nosso bem.” Lindas canções natalinas são ouvidas nos corredores dos shoppings, nos filmes assistidos pela tv, e nos sonhos das crianças em todo o mundo.

Com o advento das redes sociais, mesmo em países de religião não cristã, a magia do natal entra pelos celulares, pelos computadores e nos mostra uma realidade com neve, marshmallow, presentes, família, afeto que nem sempre é a realidade das crianças que assistem a tudo isso.

O Natal é uma época de celebração e alegria, mas para muitas crianças, é um período de reflexão sobre as desigualdades sociais que afetam suas vidas. Em meio às luzes coloridas, lindas árvores com presentes, há histórias de famílias que lutam para sobreviver e estudantes que deixam de receber a merenda escolar durante as férias. Uma triste realidade que nos mostra as diferentes faces do Natal e como a desigualdade social afeta a infância.

A desigualdade social é um problema crônico que afeta milhões de crianças em todo o mundo. No Brasil, muitas famílias vivem em situação de pobreza, sem acesso a serviços básicos como educação, saúde e alimentação. As crianças são as mais afetadas, pois crescem em ambientes desfavoráveis que limitam suas oportunidades de desenvolvimento. Independente do padrão social que a criança vive, nem sempre a sua realidade é sequer parecida com a difundida pelos filmes de natal. Os filmes de natal mostram, em sua maioria, oficinas de biscoito e longos e lindos encontros de família. No entanto, na vida real, a troca de presentes muitas vezes não ocorre, tão pouco os biscoitos decorados e perfumados. A ceia de natal pode não existir, assim como o afeto e as promessas de um ano fraterno. As crianças, no período das festas de final de ano muitas vezes sentem-se abandonadas e tem como lembrança feliz apenas as festividades que a escola realiza, como a cantata e o amigo secreto em sala de aula. 

O Natal é uma época em que as famílias se reúnem para celebrar, mas nem todas as famílias têm a mesma estrutura ou recursos. Há famílias monoparentais, famílias de baixa renda, famílias em situação de rua e famílias que vivem em áreas rurais. Cada uma dessas famílias tem sua própria história e desafios. Independente do padrão social, nem sempre há pais e mãe, avós e tios reunidos na mesma noite de natal. A solidão das crianças nesse período é algo desafiador, silencioso e muitas vezes passa desapercebido por pais e, ou familiares. Muitas vezes é ouvido por mães e pais a típica frase: Não tenho nada para fazer. E, na realidade, a criança não tem mesmo. A mudança brusca de rotina é capaz de tornar o dia a dia infantil, limitado e enfadonho. Claro que há famílias que se reúnem ou viajam nesse período mas é uma pequena faixa de crianças que tem essa sorte de visitar os parentes ou conhecer outras cidades ou estados.

Nas comunidades menos favorecidas, o problema é ainda pior. A dura realidade da fome surge duramente nas casas de muitas famílias brasileiras. A merenda escolar, um direito fundamental para muitas crianças, pois é a única refeição garantida do dia, deixa de existir. Garantida por lei, a merenda escolar é oferecida durante 200 dias letivos, contudo, o ano tem 365 dias e mais de 30 dias são as férias escolares. Durante os recessos e as férias escolares, muitas crianças deixam de receber essa refeição, o que agrava a situação de pobreza e fome. 

Certa vez, pude presenciar uma triste cena de uma criança tendo uma vertigem logo pela manhã. Era um sábado e as crianças, estudantes regulares, recebiam reforço escolar, bem como merenda. Após o primeiro atendimento a esse estudante, ele nos confidenciou que a única refeição que consumia diariamente, era a refeição oferecida pela escola. Todavia, o lanche da sexta-feira havia sido leite com biscoito. Há uma desigualdade muito grande nas vidas dos estudantes brasilienses. Esse estudante estudava em uma escola pública do Guará, porém,   era morador da Vila Estrutural e vivia em vulnerabilidade social severa. A fome não escolhe raça, cor, perímetro urbano. Ela, a fome, existe  e faz vítimas muito mais perto do que imaginamos.

O Natal é uma época para refletir sobre as desigualdades sociais que afetam a infância dos estudantes. É hora de reconhecer que a desigualdade social é um problema que afeta todos nós e que é necessário trabalhar juntos para criar uma sociedade mais justa e igualitária. Vamos celebrar o Natal com alegria e esperança, mas também com a consciência de que há muito a fazer para garantir que todas as crianças tenham acesso a uma infância feliz e saudável.

Adriana Frony, professora, administradora, especialista em gestão escolar, mídias sociais, mestranda em ciências da educação, escoteira, palestrante e mentora com mais de 30 anos de experiência na educação, dedicou-se a transformar a aprendizagem em uma experiência alegre e significativa para seus alunos. Acredita que educar é um ato de coragem e amor, que deve ser vivido com liberdade e criatividade. Contato: espacodeaprendizagemintegrada@gmail.com

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