A descaracterização musical do Carnaval brasileiro

Morei em Salvador por mais de cinco anos. Durante todo esse tempo, nunca curti festa de carnaval.

Dizem que é a melhor festa do mundo, mas, sinceramente, nunca gostei. Sempre preferi São João, um forrozinho, algo mais tranquilo. Longe de muvuca, agitação. Agonia.

Em um desses anos, de bobeira na capital, resolvi consultar a galera que morava ali para saber como era de fato. Quem sabe eu não me animava.

Queria saber, por exemplo, qual o melhor horário, o melhor bloco e a situação considerada mais ou menos “segura” para curtir sozinho, sem preocupação em ser assaltado, pisoteado ou levar umas coronhadas de policial por estar distraído no meio da “pipoca”.

E o melhor local para esse tipo de consulta, sem dúvida, era um bar.

Todo mundo tem uma opinião e um conselho para dar em um bar.

— Vá sozinho não, vúh, senão você se passa — disse um rapaz de óculos ao meu lado. — Se sair pra beco, os “menino” te rapa… tem que ficá esperto!

O dono do bar concordou: — Se levar ‘mulé’, também bota ela na sua frente…

Quis saber o porquê.

— Oxe, cê maluco é? Vai querer levar pião? O cara passa a mão e vai puxar sua mina… — disse, fazendo um gesto com o braço, insinuando beijo na boca. — Quando cê menos perceber, meu irmão, já foi…

O outro emendou: — E ói, dinheiro, só o suficiente pra comprar umas latinhas e voltar pra casa na maresia… Eu, por exemplo, tenho uma pochete que eu jogo aqui dentro — e mostrou que seria dentro da calça. — Quando quero comprar alguma coisa, chego na barraca: “minha tia, ó, quero uma cerveja… quanto é?” “Três por cinco!” “Tome cá!” Se for de três, melhor ainda… um pra cada.

O dono do bar completou: — Outra coisa: fique sempre perto de uma guarita… tem sempre uma tia ali com um isopor vendendo… vai depois do meio-dia, fique até umas oito… no outro dia, de novo… rapá, cê curte seu carnaval de boa…

— Fique ali em Ondina… vá pra Barra não… — disse o cara de óculos.

Quis saber por quê.

— Oxe, muita gente… mas a galera ali é de boa… dá pra curtir tranquilo… se quiser pegar umas minas “mermo”, é só na Barra…

Disse que só queria curtir, ver a galera, dançar um pouco. Isso se decidisse ir, né…

— Pois então, pesquise antes, veja quem vai sair. Amanhã mesmo vai ser Saulo…

O dono do bar se empolgou: — Saulo é massa. Uma galera mais elitizada. Só não vai de Psirico ou de Igor Canário… muita muvuca… só dá confusão… barrocada…

Um rapaz lá do fundo comentou, com cara de gaiato: — Vai de “Unha Pintada” então… é de boa…

Perguntei: — Unha Pintada? Como assim? Não conheço…

— Unha Pintada é arrocha… a galera da sofrência… cê não é daqui não, é?

— Morei aqui já um tempo, mas nunca fui… nem conhecia muito essas paradas aí…

O dono do bar continuou: — Outra coisa: vê que os “zomi” — policiais — estão vindo, “se abre” logo. Deixe passar. Nunca fique na frente… — e insinuou uma cena, dançando com um copo e ficando de lado, olhando algo passar. — Passou? Cê volta a curtir de boa…

E olhou pra mim: — E num vai arrumado assim não, senão os caras acham que você é turista… tem que ir de bermuda, chinelo Havaiana… bem simples… o cara vê logo que cê tá liso, ele se pica…

Aí cada um começou a contar uma história.

— Carnaval é de boa, meu velho. Mas tem que saber curtir. Eu parei de ir porque essas bandas de hoje… não me atraem…

Outro contou: — Rapaz, teve uma vez que eu tava lá com minha tia e vi um cara com uma mulher… veio outro do nada e deu um soco nele… caiu empacotado na frente da mulher… desse dia pra cá nunca mais fui…

— Eu vi uma vez um cara sendo esfaqueado bem na frente… porque o outro cismou que ele tinha mexido com a mulher dele… e o pior: nem tinha mexido…

Depois daquilo, sinceramente, já não estava muito afim de ir. Depois das histórias, então.

Não era medo. Era escolha. Estilo.

— Acho que vou descer pro interior mesmo — decidi.

O dono do bar ainda insistiu: — Não, vá, meu irmão… curte seu carnaval. É como te falei: sabendo curtir, é de boa…

Mas eu já estava decidido.

Mais uma vez, a vontade de curtir carnaval em Salvador não veio. Saí dali ainda mais convicto de que, para mim, a melhor festa do mundo sempre foi — e continua sendo — o São João no interior.

Leandro Flores | Poeta, jornalista e advogado. Ativista cultural e fundador do Café com Poemas e do Movimento Cultivista Brasileiro. Autor de Sorriso de Pedra, dedica-se à valorização do sertão e à promoção da literatura independente.
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@leandroflores.poeta

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