A crônica pede fôlego novo

A crônica brasileira sempre foi um espaço de respiração. Um território onde o cotidiano ganha espessura, humor, delicadeza e crítica sem precisar levantar a voz. Tivemos mestres nesse exercício. Paulo Mendes Campos, Carlos Drummond de Andrade, Luís Fernando Veríssimo, entre outros, ensinaram gerações a olhar o mundo com atenção e ironia fina. A crônica nunca foi menor. Sempre foi precisa.

Em 2025, o experiente Ruy Castro, com a obra O Ouvidor do Brasil: 99 Vezes Tom Jobim, além de vencer em sua categoria específica, também foi consagrado como o Livro do Ano daquela edição. Tal conquista mostra que o gênero ainda pulsa. 

Ainda assim, é impossível ignorar um certo apagamento. A crônica continua existindo, mas perdeu centralidade. Com raríssimas exceções como Correio Braziliense e o Globo, ela sumiu dos jornais impressos, rareou nos cadernos culturais, foi empurrada para nichos. E isso pede reflexão.

Em Brasília, essa discussão ganha contornos próprios. Tivemos um grande cronista fundador. Clemente Luz foi, de fato, o primeiro cronista da cidade. Funcionário da Rádio Nacional, lia suas crônicas no rádio, atravessando as ondas com textos que ajudaram a inventar simbolicamente a capital. Depois, reuniu esses escritos no livro Invenção da Cidade, de 1967. A crônica, ali, não apenas comentava Brasília. Ela a criava.

Hoje, temos bons exemplos que merecem mais luz. Autora do excelente livro de crônicas, Preta Lucidez, Tuanny Pereira de Araújo foi umas das selecionadas do Prêmio Carolina Maria de Jesus de Literatura Produzida por Mulheres 2023. Outra autora selecionada na mesma edição do prémio foi a também brasiliense, Marina P.P.Oliveira. Dentre as outras que já publicou, destaco “Debaixo do Ipês – Crônicas Afetivas”.

 

Na Universidade de Brasília, a professora Ana Rossi, escreve crônicas que deslocam o olhar, misturam linguagem acadêmica, vida cotidiana e estranhamento. Dela, temos o singular “Eu, na medida de mim mesma: 88 crônicas fantásticas, filhas da pandemia”. Não podemos esquecer da experiente Basilina Pereira, que também constrói textos atentos ao detalhe, à cidade, às fraturas do dia a dia.

São vozes que existem, escrevem, publicam. Mas ainda falam para poucos.

Talvez o problema não seja a falta de cronistas, mas a falta de espaço e de aposta. A crônica exige tempo, escuta, leitura do mundo. Não compete com a pressa das redes, mas pode dialogar com elas. Pode ser curta sem ser rasa. Pode ser leve sem ser frívola. Pode ser crítica sem ser panfletária.

Há uma urgência de renovação. Não para romper com o passado, mas para respirar junto com ele. A crônica precisa ser redescoberta pelos jovens escritores como um lugar possível de experimentação. Um texto que flerta com o jornalismo, mas não se submete a ele. Que comenta o mundo, mas não se esgota na notícia. Que cabe numa página, mas abre reflexão.

Oxigenar a crônica é continuar a exercitar o olhar sobre onde se vive, e, claro, sobre nós mesmos. Ainda há muito a ser dito. Em poucas linhas, às vezes, cabe um mundo inteiro.

Marcos Linhares é jornalista, escritor, biógrafo e curador literário baseado em Brasília. Atua há mais de duas décadas na promoção da leitura, políticas do livro, formação de autores e fortalecimento da cena literária do Centro-Oeste. Já coordenou a Feira do Livro de Brasília, projetos literários no DF e iniciativas educativas.
Marcos Linhares é jornalista, escritor, professor e biógrafo. Atua há mais de duas décadas na promoção da leitura, políticas do livro e formação de autores. Foi presidente do Sindicato dos Escritores do DF e já coordenou a Feira do Livro de Brasília, projetos literários no DF e iniciativas educativas. É autor premiado nos Estados Unidos. Criou prêmios, programas e ações voltadas ao direito autoral, ao livro e à democratização da literatura.
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