A diferença entre aliviar um sintoma e curar a causa. Um guia para quem já tentou de tudo, está cansado de paliativos e busca uma transformação real.
Vivemos na era do “tudo agora”. Se queremos comida, o aplicativo entrega em 20 minutos. Se queremos entretenimento, o streaming começa em segundos. Se queremos transporte, o carro chega em 5 minutos.
“Entre os jovens de 18 a 24 anos, a pesquisa Covitel 2023 mostra que 31,6% apresentam diagnóstico de transtorno de ansiedade. Esse dado evidencia que a ansiedade é especialmente prevalente nessa faixa etária, reforçando a importância de ações de prevenção e atenção desde cedo. Segundo o Instituto Ame Sua Mente (IASM), com dados da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), 50% dos transtornos de saúde mental apresentam sinais até os 14 anos, e 75% até os 24 anos.” (Fonte em anexo)
Não é surpresa, portanto, que tenhamos transferido essa expectativa de velocidade para a nossa saúde mental. Queremos a cura para uma angústia de trinta anos em dez sessões. Queremos o “hack” mental que desligue a ansiedade como quem desliga um interruptor. Queremos o protocolo de “5 passos para a felicidade”.
“Apesar de 68% dos brasileiros relatarem sentimento de nervosismo, ansiedade e tensão, mais da metade da população nunca procurou um profissional da saúde para lidar com questões relacionadas a transtornos de ansiedade. De acordo com uma pesquisa divulgada pelo Instituto Cactus em parceria com a AtlasIntel, 55,8% das pessoas não buscaram ajuda profissional.” (Fonte em Anexo)
O mercado, sempre atento, oferece exatamente isso: terapias fast-food, coachings de alto impacto, imersões de fim de semana e promessas de transformação radical em tempo recorde.
Muitos pacientes chegam ao meu consultório após passarem por essa maratona, já faz décadas que estão passando pelas mesmas repetições. Eles sentam na poltrona exaustos e dizem: “Will, eu já fiz de tudo. Eu melhorei por um mês, mas agora parece que estou pior. O que há de errado comigo?”
A minha resposta é sempre a mesma: Não há nada de errado com você. O que falhou foi o método.
Você tentou aplicar uma lógica de fast-food a um processo de alta gastronomia, que é a complexidade da alma humana. Para entender por que terapias fast-food muitas vezes falham a longo prazo, precisamos entender a natureza do sintoma.
Na visão da psicopatologia fenomenológica, o sintoma (seja ele uma crise de pânico, uma compulsão ou uma depressão) não é um “erro” do sistema. Ele é uma solução.
O sintoma é a maneira precária, mas funcional, que o seu psiquismo encontrou para lidar com uma dor insuportável ou um conflito interno que você não consegue nomear. A ansiedade, por exemplo, muitas vezes é uma defesa contra um vazio existencial ou um trauma não elaborado.
As “soluções rápidas” focam em remover o sintoma. Elas ensinam técnicas de respiração para parar a taquicardia ou reestruturações cognitivas para bloquear o pensamento negativo.
Isso funciona? Sim, para o alívio imediato. É como tomar um analgésico para uma perna quebrada.
O problema é que, quando você remove o sintoma sem tratar a causa (o osso quebrado, o conflito inconsciente), o psiquismo fica desprotegido. E então, acontece uma de duas coisas:
- O Retorno do Recalcado: O sintoma volta com força total na primeira crise de estresse.
- O Deslocamento: O sintoma “muda de lugar”. Você para de ter crises de pânico, mas desenvolve uma gastrite severa ou uma insônia crônica.
A psicanálise vai na contramão da cultura da pressa. Ela não se propõe a ser um analgésico; ela se propõe a ser uma cirurgia reparadora ou uma reengenharia da fundação da casa.
Isso leva tempo? Sim. Mas vamos reavaliar o conceito de “tempo”.
O que é mais “rápido”:
- Passar 10 anos pulando de terapia breve em terapia breve, gastando dinheiro e energia em ciclos de melhora e recaída?
- Ou dedicar 2 ou 3 anos a um processo de análise profunda que altere estruturalmente a forma como você se relaciona consigo mesmo e com o mundo, prevenindo recaídas futuras?
Enquanto as abordagens rápidas criam uma dependência de “ferramentas” e “técnicas” externas, a análise busca que você entenda a gramática do seu próprio desejo. Não se trata de aprender a controlar a ansiedade, mas de entender o que a ansiedade está dizendo sobre a vida que você está levando.
Quando você entende a raiz, você não precisa mais “controlar” o sintoma. Ele perde a função. Ele se dissolve porque a causa foi tratada.
Eu não vou mentir para você. A psicanálise é exigente. Ela não é um “spa mental” onde você vai para relaxar.
É um espaço de trabalho. Exige a coragem de olhar para as sombras, para as repetições familiares, para as escolhas que fizemos e para as que deixamos de fazer. Exige suportar o silêncio e a angústia de não ter respostas prontas.
Mas é justamente porque é exigente que ela funciona.
Vejo diariamente que o ser humano é complexo demais para caber em protocolos padronizados. Sua dor é única. Sua história é única. O emaranhado de afetos que constitui o seu Eu não pode ser desenrolado em seis sessões de 50 minutos.
Se você está lendo este texto, suspeito que você já tenha passado pela fase do “alívio rápido”. Você já percebeu que a poeira que você varreu para debaixo do tapete está começando a formar uma montanha e você está tropeçando nela.
Talvez seja hora de parar de buscar atalhos.
A proposta da psicanálise é simples e radical: oferecer um lugar onde você possa falar tudo aquilo que nunca foi dito, para que possa finalmente deixar de ser refém do seu passado. É a troca da repetição pela invenção.
Não é mágica. Não é miojo. Mas é real. E, diferentemente do alívio passageiro, é duradouro.
Sempre é tempo de desatar nós, mas sem pressa!
REFERÊNCIA DOS DADOS:
https://biblioteca.observatoriosaudepublica.com.br/blog/setembro-amarelo-evolucao-ansiedade-brasil/
68% dos brasileiros sentem-se ansiosos e menos da metade busca ajuda, diz pesquisa | CNN Brasil
Prof. Dr. William Figueiredo é filósofo, psicanalista e educador físico. Pós-doutor em Psicologia pela Universidade Federal de Uberlândia e doutor em Ciências da Religião. Especialista em Psicopatologia e Bem-Estar Social pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa, atua com atendimento clínico online, supervisão e assessoria em desenvolvimento humano e educacional. Atua como professor colaborador na Pós-graduação da Universidade Metodista de São Paulo. Ministra palestras, formações e workshops voltados à escuta qualificada, saúde mental e processos educativos com ênfase em: Psicanálise, Neuroeducação, Aprendizagem Tangencial, IA e Educação Socioemocional.
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A jornada analítica começa com uma primeira escuta. Se você está pronto para ir além dos sintomas e entender as raízes do seu sofrimento, agende uma conversa preliminar de acolhimento (online ou presencial).
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