A crise da razão e o colapso ambiental

A cegueira contemporânea em face do colapso climático evoca as distopias ciberpunk e o mundo desolado de Mad Max. No ciberpunk, a arrogância tecnológica da Modernidade não gerou utopia, mas sim megacidades controladas por megacorporações, onde o avanço científico coexiste com a degradação humana e ambiental. Já Mad Max visualiza o fim da racionalidade estrita: um mundo pós-apocalíptico onde a escassez de recursos e o colapso da ordem legal e científica exigem uma anarquia brutal para a sobrevivência. Nesses cenários, a “lei e ordem” metodológica desmoronam, provando que, sem humildade e ação coletiva. A ciência, isolada, não nos salva do deserto.
A ciência, atualmente, cumpre seu papel em duas frentes cruciais na crise climática: o diagnóstico e a solução.
No diagnóstico, a comunidade científica estabeleceu de forma inequívoca a influência humana no aquecimento global. Por meio de sofisticados modelos climáticos, medições precisas de Gases de Efeito Estufa (GEE) na atmosfera e análises detalhadas de ecossistemas, o consenso científico é esmagador.
Na frente da solução, a ciência é a principal fonte de inovação para a mitigação e a adaptação. É do esforço científico que surgem as tecnologias de energias renováveis (como a solar e a eólica), os avanços na captura e armazenamento de carbono, e o desenvolvimento de cultivares agrícolas mais resilientes para garantir a segurança alimentar em um clima instável.
O grande paradoxo da nossa era reside na cegueira contemporânea. Apesar do volume esmagador de evidências científicas e da urgência manifesta nos eventos climáticos extremos (secas prolongadas, inundações devastadoras, ondas de calor recordes), a resposta predominante da sociedade, da política e até de vastos setores da mídia é marcada pela inércia, pela procrastinação ou, em casos mais extremos, pela negação.
O resultado é um fosso perigoso: o que a ciência sabe e grita é sistematicamente abafado pelo ruído do presente e pelas prioridades de curto prazo. O conhecimento científico, que deveria ser a alavanca da mudança, é transformado em um grito de alarme ignorado, ameaçando a possibilidade de um futuro coletivo habitável.
Essa ineficácia do conhecimento científico em gerar uma ação política e social proporcional à ameaça levou pensadores a questionarem a própria estrutura do saber moderno. A urgência pela descentralização e pela quebra da “arrogância metodológica e ontológica” encontra um eco profundo na crítica ao dogma racionalista da ciência.
O filósofo da ciência Paul Feyerabend, em seu influente trabalho Contra o Método, oferece uma das contestações mais radicais. Ele argumenta que a ciência é, em sua essência, um empreendimento anárquico. Feyerabend postula que a metodologia racional e rígida, que busca impor “lei e ordem” ao processo de descoberta, é na verdade “quimérica e perniciosa”. Ela simplifica a complexidade das capacidades humanas e das circunstâncias reais que promovem o desenvolvimento.
Para Feyerabend, o apego estrito à metodologia leva ao dogmatismo e ao chauvinismo da ciência. Uma educação científica dogmática e simplificadora – tal como frequentemente a conhecemos – inibe as intuições e torna a história da ciência “mais insípida, mais simples, mais uniforme, mais ‘objetiva’”. A ironia é que essa racionalidade estrita, defendida por escolas como a popperiana, eliminaria a própria ciência como a conhecemos, pois seu progresso só foi concretizado em seu passado quando a razão foi, em algumas ocasiões cruciais, posta em segundo plano. O princípio que não inibe o progresso, segundo ele, é paradoxalmente: “tudo vale” (anything goes).
O caso de Galileu Galilei é apresentado como a demonstração histórica desse anarquismo epistemológico em ação. Galileu não refutou o argumento anticopernicano pela via da metodologia estrita; ele o “afastou”. Seu êxito deveu-se, em grande parte, à desobediência de regras importantes do método científico. Ele usou a propaganda, empregou artifícios psicológicos, introduziu novas interpretações sob a máscara da memória ancestral e valeu-se de hipóteses ad hoc.
Galileu é retratado como um “oportunista brutal” que, ao não se prender a filosofia alguma, inventou uma experiência que tinha ingredientes metafísicos, tornando a própria experiência algo “fluido” para salvar uma hipótese potencialmente valiosa. Essa “operação desarrazoada, insensata, sem método” era, paradoxalmente, a condição inevitável para a clareza e o êxito empírico da nova cosmologia. A adesão a novas ideias, incompletas e absurdas à época, teve de ser conseguida por meios que envolveram a emoção e os preconceitos.
Ao se fechar em seus padrões rígidos e recusar alternativas de pensamento, a ciência corre o risco de transformar seu sucesso histórico em uma ideologia rígida, tornando seu êxito inteiramente artificial. O dogma da coerência, embora afaste discussões estéreis, resulta em um “conformismo sombrio” e na deterioração das capacidades intelectuais. Essa recusa em examinar alternativas resulta, inclusive, no afastamento de fatos potencialmente refutadores, pois eles não se encaixam no molde pré-estabelecido.
É crucial, portanto, reconhecer que a ciência se aproxima do mito e é apenas uma das muitas formas de pensamento desenvolvidas pela humanidade, não sendo “necessariamente a melhor”.
Concluímos com um apelo radical e cosmopolítico: é tempo de reduzir a ciência às devidas proporções e exigir a separação entre o Estado e a ciência, que se tornou a mais recente, agressiva e dogmática “instituição religiosa”. Essa separação é vista como o único caminho para alcançarmos a humanidade plena.
Devemos, por fim, abraçar o convite à Simpoiese (fazer junto), criticando o individualismo e o antropocentrismo. A salvação reside em nos abrirmos à pluralidade do conhecimento, acolhendo ideias antigas e plurais (como o vodu ou mitos cosmogônicos) para enriquecer a cultura e aperfeiçoar o saber. A tarefa do intelectual, neste novo paradigma, não é buscar uma “verdade” única, mas sim “tornar forte o argumento fraco”, garantindo o movimento e a vitalidade do todo.
A urgência é clara: Desatemos os nós, antes da queda do céu!

Referência:
FEYERABEND, Paul, Contra o Método. 3ªed . Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1989

Prof. Dr. William Figueiredo é filósofo, psicanalista, pós-doutor em Psicologia pela Universidade Federal de Uberlândia e doutor em Ciências da Religião. Especialista em Psicopatologia e Bem-Estar Social pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, atua com atendimento clínico online, supervisão e assessoria em desenvolvimento humano e educacional. É também professor colaborador na Universidade Metodista de São Paulo e no Instituto Ânima, como formador em Educação Socioemocional. Ministra palestras, formações e workshops voltados à escuta qualificada, saúde mental e processos educativos.

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