O autor Benedito Ruy Barbosa faleceu nesta terça-feira (7/7), aos 95 anos, deixando um legado imensurável para a cultura nacional
Me desculpe pela demora, Benedito. Sei que você nos deixou na madrugada de terça-feira (7/7), mas só consegui escrever agora. Tenho certeza de que você, jornalista antes de se tornar um dos maiores dramaturgos da história da televisão brasileira, vai entender. Nossa vida, no front ou não, sempre será uma correria.
Escrevo este texto apenas para agradecer por ter aberto uma linda janela no meu mundo suburbano quando ainda era uma menina aqui na selva de pedra. Suas novelas não cativaram apenas a mim, mas uma geração inteira, ao mostrar um Brasil rural, do interior, justamente quando a moda era retratar os grandes centros urbanos, como Rio de Janeiro e São Paulo.
Aprendi na escola que São Paulo era o motor do país e que o Rio de Janeiro era a cidade mais turística do Brasil. Foi com você que descobri que o nosso pais era muito maior do que isso.
Em 1990, uma campanha publicitária, com um slogan inspirado em uma famosa música, dizia algo assim: “Venha conhecer O Brasil que o Brasil ainda não conhece”. Não por acaso, foi o ano da estreia de Pantanal, novela que apresentou ao país — que ainda reaprendia a viver em democracia — uma das regiões mais belas, misteriosas e fascinantes do Brasil. E eu repito: só conheci o Pantanal por sua causa. Era lindo. A gente sentia uma paz imensa ao contemplar aquelas paisagens cinematográficas, os rios, a mata, os tuiuiús, as onças, as sucuris e até a vida dos peões.
Eu já tinha ouvido falar dos conflitos por terra no Brasil, claro. Mas foi com esse grande sucesso que compreendi como os grileiros enganavam a população e provocavam disputas que terminavam em tragédia. Sem usar a expressão “reforma agrária”, você mostrava a importância de uma distribuição mais justa da terra. Para que, assim, outras Marias Marruá não precisassem perder dois filhos em disputas como a de Sarandi, nem quase abandonar sua filha temporã, Juma, por medo de sofrer mais uma perda.
Também já tinha ouvido falar dos coronéis e, para mim, eram todos iguais. Mas o seu Leôncio mostrou que era possível exercer autoridade com humanidade, respeito, trabalho e sem destruir a vida do outro.
Depois de Pantanal — novela recusada pela Globo na época — sua vida nunca mais foi a mesma. Nem a minha.
Suas histórias sempre falavam de Deus e de Sua justiça. Mas confesso que tenho a impressão de que você também gostava de um diabinho… Afinal, ele apareceu engarrafado tanto na novela Paraíso quanto em Renascer. E como a gente tinha medo daquela garrafa! Também adorava o sotaque carregado dos seus personagens, aquele jeito rústico, simples e profundamente brasileiro.
Já ouvi dizer que suas novelas tinham um olhar muito masculino e que você até seria machista, porque seus protagonistas costumavam ser homens. Mas alguém capaz de criar personagens como Maria Marruá e Juma Marruá jamais poderia ser machista em sua essência. Você era, na verdade, um grande admirador da força feminina.
Citei Renascer, não ė? Que novela! Ela trazia todo o misticismo da região cacaueira da Bahia, um pouco diferente daquela Bahia que Jorge Amado me apresentou nos livros. Na escola aprendi a condenar o coronelismo — e com razão. Sabemos o quanto ele fez mal ao país. Mas eu amava o seu Leôncio e também José Inocêncio, justamente porque, apesar de todos os seus defeitos, preconceitos e contradições, eram profundamente humanos.
Aliás, voltando só um pouquinho a Pantanal: ver Zaqueu, um mordomo gay, tornar-se peão foi emocionante. Lá em casa, todo mundo vibrou. Eu amava a Santinha, as rezas, as professorinhas… e, claro, o diabinho na garrafa. Sim, já falei dele.
Quando achei que você não poderia se superar, veio O Rei do Gado. O que foi aquela primeira fase? A vida na lavoura, a guerra entre famílias, um amor digno de Romeu e Julieta, tudo atravessado pela Segunda Guerra Mundial. E, na segunda fase, Raul Cortez entregou uma atuação monumental. Sei que Bruno Mezenga, de Antônio Fagundes, era o Rei do Gado. Mas o Geremias Berdinazzi de Raul Cortez era o que hoje se chama de “absolute cinema”.
Mais uma vez, uma trama sua discutia a concentração de terras. O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra estava ali, representado por Luana/Marieta Berdinazzi, de Patrícia Pillar. Até quem discordava do movimento conseguia compreender a desigualdade histórica da distribuição de terras no Brasil.
E você seguiu contando histórias. Mostrou novamente a saga dos imigrantes italianos sem esquecer daqueles que foram escravizados durante séculos neste país. Confesso que gostaria até de ter visto você se aprofundar ainda mais nesse tema, mas ele foi muito bem abordado em Sinhá Moça.
Foi bonito ver seu talento seguir dentro da própria família. Edmara Barbosa participou do reboot de Meu Pedacinho de Chão, uma novela de rara poesia.
E sua melhor novela sempre parecia ser a última. Eu me apaixonei por Velho Chico. Criada por você e escrita por Edmara Barbosa e Bruno Luperi, mãe e filho. Que primor de história! Que fotografia! Que cenário! Que personagens maravilhosamente escritos. Uma pena que tenha ficado marcada pela morte trágica de Domingos Montagner. Eu amei aquela novela. Me apaixonei pela história de amor madura entre Santo e Tereza (Camila Pitanga).
São tantas histórias e tantos personagens… E eu falei apenas das novelas que realmente acompanhei. Sei da importância de Os Imigrantes, mas infelizmente não tive a oportunidade de assistir. Foram 459 capítulos, Benedito. Algo simplesmente impensável nos dias de hoje.
Quero terminar lembrando uma novela sua que não fez o sucesso esperado, mas que eu adorava: Esperança. Eu amava o português Murruga. Foram tempos difíceis, eu sei. Você ficou doente e Walcyr Carrasco assumiu a novela. E nunca escondeu que não gostou dos rumos que ela tomou.
Aliás, conversamos sobre isso durante uma das poucas entrevistas que fiz com você por telefone. E acredita que eu não gravei? Nem pensei nisso. Eu estava conversando com um dos meus maiores ídolos, e nem tudo precisava virar notícia.
Suas novelas sempre foram livros em forma de televisão para mim. São eternas.
Obrigada, Benedito.
Obrigada por me ensinar que, para um alimento chegar à nossa mesa, existe uma multidão de pessoas trabalhando na lavoura. Obrigada por me mostrar um Brasil que eu jamais conheceria pelos livros didáticos (que eram bem falhos na época da ditadura).
Seguimos.
Até um dia.




