CBF investe em mudanças para fortalecer futebol brasileiro

Nova gestão completa 1 ano priorizando saúde financeira, reforma das competições e melhoria da arbitragem e da base

O futebol brasileiro sempre soube produzir espetáculo em campo. Agora, o desafio é fazer a saúde financeira dos clubes acompanhar esse protagonismo. Há 1 ano, ao assumir a CBF (Confederação Brasileira de Futebol), a nova gestão colocou a sustentabilidade econômica do setor dentre as prioridades, para fortalecer o esporte dentro e fora de campo.

Um dos pontos de partida da nova fase é o projeto da sustentabilidade financeira dos clubes. Os times viveram um período de crescimento acelerado de receitas e de avanço das SAFs (Sociedades Anônimas do Futebol). Com mais dinheiro circulando, os custos no mercado de jogadores cresceram e o equilíbrio do sistema se rompeu, sendo necessária a implementação do SSF (Sistema de Sustentabilidade Financeira).

“A dívida dos clubes, que era de R$ 7,8 bilhões em 2022, saltou para quase R$ 14 bilhões. As receitas cresceram 35%, e o endividamento cresceu quase 80%”, afirmou o diretor-executivo da CBF, Helder Melillo.

A entidade chamou à mesa equipes das Séries A e B, consultores, federações e especialistas do ramo para compor o Grupo de Trabalho de Fair Play Financeiro, a fim de desenvolver um modelo aplicável ao Brasil e colocar o fortalecimento econômico dos clubes no centro da agenda.

O SSF do futebol brasileiro surgiu dessa união, que estabeleceu regras de responsabilidade com as contas e punição para os clubes infratores. O modelo inclui normas de controle financeiro, fiscalização das contas e a criação da Anresf (Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol).

Trata-se de um órgão independente, responsável pela fiscalização e aplicação das medidas estabelecidas no regulamento. “Era importante construir uma estrutura permanente para acompanhar essa transformação”, disse Melillo.

Dados analisados pela Anresf mostram que os gastos ligados à formação de elenco cresceram 140%, 4 vezes mais que as receitas. O fenômeno passou a ser associado ao conceito de “doping financeiro” –expressão usada para definir situações nas quais os clubes ampliam gastos acima da própria capacidade econômica para aumentar a competitividade.

Assim, o regulamento foi elaborado pela CBF em conjunto com representantes das Séries A e B. Dos 40 clubes convidados para o grupo de trabalho, 34 participaram da construção do modelo. “Os clubes participaram com sugestões, críticas e comentários ao regulamento”, afirmou o presidente da Anresf, Caio Cordeiro de Resende.

Inspirado pelas principais ligas

O objetivo do fair play financeiro é ampliar a previsibilidade de caixa dos clubes e criar um ambiente sustentável para as competições nacionais, com reflexos diretos na qualidade do futebol. Os clubes das Séries A e B passarão a operar com limites proporcionais à própria capacidade de arrecadação. A regra principal é que os gastos com o elenco profissional não ultrapassem 70% da receita anual das equipes. 

O sistema também estabelece acompanhamento contínuo de balanços financeiros, monitoramento de dívidas e verificação periódica de obrigações financeiras. Segundo Ricardo Gluck, vice-presidente da CBF e presidente do grupo de trabalho, o modelo ajudará a reduzir distorções competitivas. “O fair play não é uma ferramenta para limitar a competitividade. A ideia é criar um ambiente mais equilibrado e previsível para os clubes”.

Também nesse sentido, a criação do SSF aproxima o futebol brasileiro dos modelos de controle financeiro adotados pelas principais ligas internacionais. “O Brasil era a única dentre as 6 maiores ligas do mundo que não tinha regras de sustentabilidade financeira”, afirmou Caio Cordeiro de Resende, presidente da Anresf.

Estruturado a partir de experiências internacionais, o modelo brasileiro estabelece controle de endividamento e limitação proporcional de gastos. A ideia é que parte das medidas seja implementada gradualmente até 2027. “Mais organizados, os clubes conseguem investir em infraestrutura, categorias de base e formação de elencos mais fortes”, disse Resende.

“O Brasil já é uma potência na formação de atletas e no tamanho do mercado consumidor. A ideia é fortalecer também a organização do futebol”, explicou Ricardo Gluck. A implementação do sistema financeiro é feita de forma paralela a discussões sobre a criação de uma liga nacional.

Os primeiros resultados práticos começaram a surgir. Em junho deste ano, a Ponte Preta, de Campinas (SP), foi excluída do Parf-B (Programa de Apoio à Reestruturação Financeira de Clubes da Série B), por causa de atrasos salariais. Um marco na cruzada por mais responsabilidade financeira no futebol brasileiro, de acordo com a CBF.

Liga única do futebol brasileiro

O desenvolvimento de uma liga para o futebol brasileiro é uma das prioridades da gestão de Samir Xaud à frente da confederação, conforme o discurso de posse. Mais do que uma promessa, a proposta reflete o entendimento de que o futebol nacional precisa avançar na organização para se tornar mais forte, competitivo e sustentável do ponto de vista financeiro.

Nos primeiros meses da nova gestão, porém, a prioridade não foi discutir modelos comerciais ou estruturas jurídicas. Antes de qualquer debate sobre a liga, a CBF entendeu que era necessário enfrentar alguns dos principais desafios estruturais do futebol brasileiro: o fair play financeiro e a profissionalização da arbitragem.

O debate foi fortalecido no âmbito internacional em janeiro deste ano, quando a CBF promoveu uma imersão na Europa com a participação de 40 representantes de clubes e presidentes de federações. A delegação visitou algumas das principais organizações do futebol mundial, incluindo Bundesliga (Alemanha), La Liga (Espanha) e Premier League (Inglaterra), além das respectivas federações nacionais.

O objetivo era apresentar e discutir temas estruturais trabalhados no Brasil, especialmente a questão financeira e a arbitragem. As conversas também trouxeram um novo olhar sobre as ligas. Nos encontros, ficou evidente a importância dessas organizações na valorização do produto, na relação com os torcedores e na criação de novas receitas para o futebol.

Ao longo dos últimos anos, a CBF manteve uma posição de distanciamento institucional em relação ao tema, enquanto os clubes buscaram construir soluções próprias. Surgiram 2 grupos: Libra (Liga do Futebol Brasileiro) e FFU (Futebol Forte União), bem como modelos de organização. Porém, as divergências internas em temas relacionados à divisão de receitas dificultaram a construção de consensos.

Nesse contexto, em março deste ano (2026), os clubes dos 2 blocos encaminharam à CBF um pedido formal para que a entidade liderasse o processo de discussão sobre a criação da liga. O movimento representou um reconhecimento da necessidade de um ambiente institucional capaz de reunir todos os clubes em torno de uma agenda comum.

“A CBF não pretende impor um modelo. Nosso papel é criar um ambiente de diálogo, reunir todos os atores do futebol brasileiro e ajudar a construir consensos. O protagonismo da liga será sempre dos clubes, mas a confederação tem a responsabilidade institucional de facilitar esse processo”, afirmou o presidente da CBF, Samir Xaud.

A confederação estabeleceu a diretriz de debater como melhorar o futebol brasileiro antes de eventuais discussões sobre como vender ou distribuir receitas. A estratégia parte de uma realidade. Os direitos comerciais do Campeonato Brasileiro estão negociados até 2029. Isso significa que uma futura liga passaria a atuar comercialmente a partir de 2030. 

Assim, existe a oportunidade de concentrar esforços na melhoria das competições em 2026, antes das discussões sobre comercialização, governança e modelo econômico. 

A CBF realizou, em abril, a 1ª reunião sobre o tema com os 40 clubes das Séries A e B e as 27 federações estaduais. Em maio, a confederação avançou em 5 temas com propostas concretas de encaminhamento:

  • criação do Comitê Antiviolência; 
  • visitas técnicas aos estádios para melhorar a infraestrutura; 
  • padronização dos horários das partidas; 
  • proposta de regulamentação da atividade de agente; e 
  • eficiência da Justiça Desportiva, com redução do tempo de tramitação dos processos.

Em junho, aproveitando a Copa do Mundo 2026, a CBF promoveu a 2ª imersão internacional com representantes do futebol brasileiro e executivos americanos. A programação incluiu visitas ao escritório da MLS (Major League Soccer) –a liga de futebol dos Estados Unidos–, reuniões com executivos da referida liga, encontros com executivos da NFL (National Football League) –a liga de futebol americano dos EUA– e debates com especialistas da NYU (New York University)

O objetivo é aprofundar temas como construção de identidade do produto, experiência de matchday (dia do jogo, na tradução livre em português), estratégias de internacionalização da marca e novas formas de criar receitas.

“Desde o início da nossa gestão, assumimos a responsabilidade de enfrentar questões estruturais que limitavam o potencial do nosso futebol. Sem essas reformas, qualquer modelo de liga nasceria frágil, incapaz de entregar o valor que todos nós desejamos. Por isso, mesmo sabendo da importância da liga, optamos por construir, primeiro, as bases que garantissem a sustentabilidade. Agora, até pelo clamor dos clubes, chegou a hora de dar esse novo passo”, explicou Xaud.

Leia mais sobre as ações da CBF no infográfico.

infográfico mostra as ações da CBF no futebo

Formação de atletas reorganizada

Preocupada com o futuro do esporte e com a retomada do protagonismo no cenário global do futebol, a CBF também investe na reorganização do processo de formação de atletas no país. O Grupo de Trabalho da Base, criado no final de abril de 2026 e coordenado pela CBF Academy, tem mais de 100 participantes dentre clubes, federações, universidades, especialistas e representantes do futebol masculino e feminino.

A proposta surgiu a partir do diagnóstico de que o Brasil continua formando talentos, mas perdeu a capacidade de reter jovens jogadores. A exportação de jogadores brasileiros é feita principalmente na faixa etária de 18 a 23 anos. Em 2025, foram 307 transferências internacionais nesse grupo, segundo o TMS (Transfer Matching System) da Fifa (Federação Internacional de Futebol).

Os dados mostram que atletas de 24 a 29 anos movimentam os valores médios mais altos, o que intensifica a discussão sobre mecanismos que permitam a maturação esportiva desses atletas antes de transferências internacionais.

O torcedor brasileiro quer ver os craques brasileiros jogando aqui também, não apenas nos clubes europeus. Não vamos atuar para prejudicar o mercado. Os ajustes buscam tornar o sistema mais favorável aos clubes brasileiros e aos atletas”, afirmou o diretor da CBF Academy, Tiago Pereira.

O Grupo de Trabalho da Base discute medidas sobre o calendário das categorias de base, a certificação de clubes formadores, o ambiente regulatório dos agentes de atletas e as diretrizes para o desenvolvimento dos jogadores. Como muitos desses jovens não seguem carreira profissional, a formação também precisa prepará-los para outras oportunidades. 

“A ideia é formar não apenas atletas, mas cidadãos para o futuro. O fortalecimento da base pode ter impactos esportivos e sociais”, explicou Tiago Pereira. 

Futebol feminino fortalecido

Um dos eixos de discussão do Grupo de Trabalho da Base é o futebol feminino, um tema transversal nos debates sobre formação de atletas e desenvolvimento das competições.

Nesse contexto, a CBF Academy também tem projetos voltados à formação de treinadoras certificadas pela Fifa. As propostas incluem ações para o fortalecimento das categorias de base, o desenvolvimento profissional e a ampliação da participação feminina no futebol. 

A Copa do Mundo Feminina de 2027, que será realizada no Brasil, integra as estratégias de desenvolvimento da modalidade. “A CBF tem olhado com muita atenção para o futebol feminino, que está presente em todos os eixos de trabalho do GT da Base, e a Copa do Mundo pode ajudar a impulsionar o ingresso de novas meninas no futebol brasileiro”, afirmou Cris Gambaré, coordenadora de Seleções Femininas da entidade.

Em um cenário de crescimento e consolidação, a competição terá transmissões oficiais pela CBF TV. “É uma oportunidade importante para ampliar ainda mais a presença do futebol feminino no mercado brasileiro”, disse Helder Melillo.


Este conteúdo foi produzido e pago pela CBF. As informações e os dados divulgados são de total responsabilidade do autor.


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