Indústria considera redução insuficiente, enquanto economistas afirmam que comunicado elevou a barra para novas quedas da Selic
A redução da taxa Selic de 14,50% para 14,25% ao ano anunciada nesta 4ª feira (17.jun.2026) pelo Copom (Comitê de Política Monetária) foi recebida de forma distinta por representantes da indústria e por economistas do mercado financeiro.
Enquanto entidades empresariais defendem uma aceleração do ciclo de cortes, especialistas avaliam que o Banco Central adotou um discurso mais cauteloso e pode interromper a flexibilização monetária nas próximas reuniões.
A Confederação Nacional da Indústria classificou a decisão como insuficiente para reverter a estagnação dos investimentos e aliviar a situação financeira de empresas e famílias. Segundo a entidade, a Selic permanece 3,1 pontos percentuais acima do nível de equilíbrio, estimado em 11,1% ao ano.
O presidente da CNI, Ricardo Alban, afirmou que os juros reais continuam elevados e limitam a expansão da atividade econômica. Para ele, o acordo entre Estados Unidos e Irã para encerrar o conflito no Oriente Médio abre espaço para o Banco Central acelerar os cortes, diante da redução das pressões sobre os preços do petróleo.
O presidente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) publicou sua crítica nas redes sociais: “O cenário da taxa de juros é insustentável e trava quem quer produzir, avançar e crescer”, escreveu.
O economista-chefe da Firjan (Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro), Jonathas Goulart, declarou que o contexto pelo qual passa a indústria nacional é desafiador. “Além da elevação dos custos de insumos e dos fretes, decorrentes da instabilidade geopolítica global, o alto –e persistente– custo de capital é fator fundamental que reduz a competitividade dos produtos brasileiros no mercado interno e externo”.
A Fiemg (Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais) adotou posicionamento mais moderado. A entidade avaliou que a redução da Selic representa um avanço para o ambiente de negócios, mas ressaltou que a taxa de 14,25% ainda é restritiva e segue impondo desafios à atividade produtiva.
SURPRESA COM TOM DURO
No mercado financeiro, a leitura predominante foi de que o corte já estava precificado, mas o comunicado do Copom surpreendeu pelo tom mais duro.
Conselheiro da Ancord (Associação Nacional das Corretoras e Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários, Câmbio e Mercadorias), Pablo Spyer afirmou que a autoridade monetária reconheceu a piora das projeções de inflação e das expectativas do mercado, além de citar pela 1ª vez os estímulos à demanda agregada como fator de risco para os preços.
Segundo Spyer, a retirada do trecho que sugeria novos cortes como consequência natural do processo de calibração indica que a continuidade da flexibilização dependerá dos próximos indicadores. Para ele, “a barra para novos cortes ficou mais alta” e o ciclo de redução dos juros está próximo do fim.
Na mesma linha, o estrategista-chefe da GCB Investimentos, Roberto Dumas, disse que a principal mensagem do comunicado foi o reconhecimento de um afastamento adicional das projeções de inflação em relação à meta. Na avaliação do economista, o texto teve caráter mais “hawkish”, termo usado pelo mercado para descrever uma atitude mais rigorosa no combate à inflação.
Dumas afirmou que, diante desse cenário, o Banco Central pode optar por interromper o ciclo de queda dos juros na próxima reunião, mantendo a Selic em 14,25% ao ano caso não haja mudanças relevantes no ambiente econômico.
“Na nossa avaliação, o BC preservou flexibilidade para novas reduções da Selic, mas sinalizou que o ritmo e a magnitude dos próximos movimentos serão definidos com base na evolução da inflação, das expectativas e da atividade econômica”, afirmou Raphael Vieira, head de Investimentos da Arton Advisors.




