Enquanto a audiência internacional é cada vez menor, mais de 30 profissionais foram mortos desde o início dos confrontos
*Por Isma’il Kushkush
Você não diria isso pela quantidade de manchetes, mas a maior emergência humanitária do mundo não está em Gaza ou na Ucrânia. Ela está no Sudão e começou em abril de 2023, quando eclodiram confrontos entre o exército nacional, as Forças Armadas Sudanesas, e seu antigo aliado, um grupo paramilitar chamado RSF (Forças de Apoio Rápido). A violência consumiu o país, com algumas estimativas apontando para um número de mortos que chega a 400 mil, além de estupros e saques generalizados, 12 milhões de pessoas deslocadas internamente e 25 milhões enfrentando a fome.
“Acho que nunca vi uma discrepância tão grande entre a dimensão de uma crise e a cobertura da mídia em toda a minha vida”, disse Tom Perriello, que foi enviado especial dos EUA para o Sudão no último ano do governo Biden. “E isso se deve tanto à enorme dimensão do sofrimento no Sudão quanto à cobertura –da mídia– terrivelmente escassa.”
Um ataque no final de outubro à cidade de El Fasher, onde relatos de testemunhas oculares sugerem que combatentes das RSF massacraram milhares de civis, recebeu alguma atenção. Mas isso apenas reforçou o quanto a mídia internacional negligenciou a guerra no Sudão, enquanto as redações enfrentam dificuldades financeiras e as guerras no Oriente Médio e na Europa Oriental –locais de maior importância estratégica para o Ocidente– consomem grande parte da atenção mundial quando se trata de sofrimento humano.
Houve um tempo em que o Sudão era notícia frequente. Duas décadas atrás, até 300 mil pessoas na região de Darfur, no oeste do Sudão —a maioria delas de aldeias negras não árabes, presumivelmente apoiadoras de rebeldes locais que haviam pegado em armas contra um governo opressor em Cartum— foram mortas por milicianos aliados ao exército e às forças governamentais, ou morreram de fome ou doenças. Defensores dos direitos humanos —inclusive o governo dos EUA— classificaram o ocorrido como genocídio. A violência atraiu a atenção de ativistas, políticos e celebridades de Hollywood dos EUA, notadamente George Clooney. Cartazes com os dizeres “Salvem Darfur” começaram a aparecer nos jardins das casas.
A situação atual é indiscutivelmente pior. Mas a narrativa de que o Sudão quase não recebe cobertura jornalística ofusca o importante papel que os jornalistas sudaneses —dos quais pelo menos 32 foram mortos durante a guerra atual— desempenham há décadas, lutando para informar o mundo sobre o que acontece em sua terra natal.
UMA HISTÓRIA GLOBAL QUE SE TORNA PESSOAL
Cresci ouvindo meus pais falarem sobre o Sudão. Era a terra natal deles e, segundo eles, um lugar de imensa beleza e imenso potencial. Na década de 1970, eles se mudaram para os Estados Unidos —onde eu nasci e passei grande parte da minha infância— para que meu pai pudesse fazer pós-graduação.
Ele adorava me lembrar que o Sudão era o maior país da África e tinha terras cultiváveis suficientes para se tornar o celeiro do mundo. Nas visitas familiares anuais, relaxávamos às margens do Nilo e admirávamos as coleções de artefatos antigos dos museus. Pouco do Sudão que eu conhecia aparecia na cobertura jornalística convencional, que, compreensivelmente, era dominada por notícias urgentes sobre fome e guerra e geralmente não se aprofundava além de generalizações simplistas de “africano” contra “árabe” ou “cristão” contra “muçulmano”. Se meus amigos não sudaneses sequer tinham ouvido falar do Sudão, era graças à “We Are the World”, o single de 1985 gravado para arrecadar fundos para o combate à fome na África.
Eu tinha acabado de me formar no ensino médio quando Omar al-Bashir assumiu o poder em 1989, por meio de um golpe de Estado. Informações confiáveis tornaram-se muito mais difíceis de encontrar, à medida que sua ditadura reprimia a imprensa. A mídia estatal veiculava fielmente comunicados governamentais banais, enquanto veículos de comunicação independentes ou de oposição se tornaram alvos de assédio, censura e prisões.
Muitos jornalistas sudaneses exilaram-se e, com a popularização da internet no início dos anos 2000, começaram a criar veículos de comunicação independentes focados no Sudão a partir do exterior. O Sudan Tribune, uma publicação online com edições em inglês e árabe, é editado em Paris. O SudaneseOnline.com, produzido no Arizona, tornou-se uma fonte confiável de notícias e análises. A Ayin Network, sediada em Nairóbi, buscou oferecer uma cobertura mais aprofundada da violência nas Montanhas Nuba com o apoio de agências de desenvolvimento e instituições pró-democracia da Europa e dos Estados Unidos —posteriormente expandiu sua cobertura para todo o Sudão.
Ao mesmo tempo, o surgimento de canais regionais de televisão via satélite em língua árabe —como a Al Jazeera, sediada em Doha, no Catar, e as emissoras sauditas Al Arabiya e Al Hadath— ofereceu outra fonte de notícias sobre o Sudão. Essas redes não estavam acima de críticas nem imunes à repressão estatal, mas eram muito mais confiáveis do que a mídia controlada pelo Estado e atraíam dezenas de milhões de telespectadores no Oriente Médio e no Norte da África.
Por fim, tornei-me jornalista e, em 2007, mudei-me para Cartum para colocar o meu conhecimento sobre o Sudão em prática e tentar a sorte como freelancer. Havia apenas um punhado de correspondentes em Cartum para veículos de comunicação em inglês. O plano era ficar 4 meses. Acabou se tornando 8 anos. O governo de Bashir dificultava a livre circulação de jornalistas e até mesmo impedia que eles tirassem fotos em público.
Saí do Sudão em 2015 para fazer um mestrado. Quatro anos depois, a organização Repórteres Sem Fronteiras classificou o Sudão em 175º lugar entre 180 países em seu Índice Mundial de Liberdade de Imprensa anual.
Mas naquele mês de abril, os protestos não violentos que ficaram conhecidos como a Revolução Sudanesa e o colapso da ditadura abriram uma nova era de esperança para o país —e para a sua imprensa. Com Bashir sendo julgado pelo golpe militar de 1989, um governo de transição anunciou que eleições democráticas seriam realizadas em cerca de 3 anos. A mídia estatal começou a cobrir os protestos locais e a promover debates sobre temas que antes eram tabu, como o estabelecimento de relações diplomáticas com Israel.
“Foi uma vitória para o jornalismo”, disse Shamael Elnoor, ex-colunista do jornal independente Al-Tayyar, que certa vez foi obrigada a deixar o país depois que foi acusada por blasfêmia pelo tio de Bashir.
Então, em 25.out.2021, os militares tomaram o poder em um golpe de Estado. Jornalistas foram presos. “No dia seguinte, invadiram nosso escritório, arrombaram as portas e levaram alguns equipamentos”, disse Elhag Warrag, fundador do jornal independente Al-Dimuqrati.
Quando voltei ao Sudão em abril de 2022 para trabalhar em um projeto de pesquisa e em um livro de memórias, negociações mediadas internacionalmente estavam em andamento entre os militares e os civis. Em agosto daquele ano, o Sindicato dos Jornalistas Sudaneses, uma organização sindical independente que havia sido proibida durante o governo de Bashir, foi reativado, juntamente com a esperança de maior proteção à imprensa. Mas problemas maiores se avizinhavam: a aliança entre os 2 principais líderes militares do país —os chefes do exército e das RSF — começava a ruir.
A GUERRA COMEÇA
Na manhã de sábado (15.abr.2023) eu estava no meu apartamento estúdio no centro de Cartum, me preparando para fazer compras para o feriado de Eid al-Fitr, quando ouvi uma troca de tiros rápida. Da minha varanda, pude ver veículos do governo correndo em uma rua de mão única na contramão. Filmei o que pude com meu iPhone e postei no Twitter (agora conhecido como X). Os confrontos entre o exército sudanês e as RSF tinham começado.
“Este é o pior cenário possível”, expliquei em entrevista à Sky News. Uma emissora da Índia queria me entrevistar pelo Skype, com a cidade visível ao fundo. Mas, com rumores de atiradores de elite na minha vizinhança e sem nenhum equipamento de proteção, decidi que era muito perigoso.
Logo depois, a energia elétrica foi cortada e a internet ficou instável. Com 1 laptop e 2 celulares quase sem bateria, não tive escolha a não ser recusar mais pedidos de entrevista. Precisava dos meus telefones para comunicações urgentes. Passei os 9 dias seguintes presa no meu prédio com 31 pessoas. Finalmente conseguimos sair depois de negociar com os combatentes das RSF do lado de fora. Consegui chegar a outra parte da cidade e, por fim, atravessei a fronteira de ônibus para o Egito.
Em toda a capital sudanesa, combatentes das RSF ocupavam, saqueavam ou destruíam redações de veículos de comunicação. Na manhã em que os confrontos começaram, invadiram as instalações da TV do Sudão e interromperam uma transmissão ao vivo.
Sabah Mohammad Al-Hassan, uma colunista de 35 anos do jornal independente Aljareeda, estava presa sozinha na casa de sua família em um subúrbio de Cartum. Ela conseguiu publicar uma coluna online no dia em que a guerra começou, argumentando que tanto o exército quanto as RSF tinham responsabilidade pelo conflito. A manchete: “Parem! Vocês 2 perdem!”.
“Escrevi minha opinião desde o 1º dia”, ela me disse. Nos 2 meses seguintes, continuou escrevendo de casa, sobrevivendo à base de lentilhas, grão-de-bico e arroz, e quase não saindo. Finalmente, soldados das RSF que haviam invadido o bairro chegaram à sua porta e a obrigaram a sair.
Ela fugiu para Shendi, a cidade ancestral de sua família, a 3 horas de carro ao norte, e continuou a publicar colunas. Então, um dia, enquanto assistia à televisão estatal, ouviu seu nome em uma longa lista de líderes civis e alguns jornalistas procurados pelo exército por supostamente apoiarem as RSF. Ela escapou escondida sob uma longa abaya, conseguindo finalmente chegar ao Egito para continuar seu trabalho.
Centenas de jornalistas sudaneses se viram deslocados ou desempregados. Alguns veículos de comunicação se realocaram para Porto Sudão, às margens do Mar Vermelho, onde altos líderes e membros do exército sudanês se reagruparam para formar um governo de fato.
O Exército deteve brevemente 3 jornalistas do Sudan Tribune, cujos escritórios foram saqueados, e as RSF expulsaram 2 de seus correspondentes do território que controlavam em Darfur. Dos seus 14 repórteres baseados no Sudão, 5 acabaram se mudando para o Cairo ou Kampala, Uganda. Jornalistas de muitos outros veículos fizeram o mesmo.
Novos veículos de mídia independentes também surgiram, incluindo a revista Atar, que chamou a atenção com artigos que capturavam as vozes desesperadas de pessoas comuns presas no meio dos combates. O Sudan War Monitor , uma colaboração entre jornalistas voluntários e pesquisadores de código aberto que coletam informações, reuniu histórias analisando vídeos de celulares, dados de GPS e outras fontes digitais. “Sabíamos que ninguém iria cobrir [a guerra]“, disse Alsanousi Adam, jornalista da equipe. Entre os maiores furos de reportagem de sua publicação estava um vídeo que mostrava oficiais da inteligência do Exército executando detentos e se gabando disso uns para os outros.
UMA BATALHA EM MUITAS FRENTES
Um dos maiores desafios para os jornalistas sudaneses tem sido combater a avalanche de desinformação e propaganda —grande parte delas, propagada pelas RSF ou pelo exército sudanês. Ambos os lados publicam sites, jornais em PDF e posts em redes sociais. O Exército usa a hashtag “#ma’rakat al-karama” , que significa “batalha da dignidade”, no X, Facebook e Telegram. As RSF usam “#ma’rakat al-dimuqratiya”, ou “batalha pela democracia”.
“Ambos os lados do conflito têm conduzido ativamente campanhas de propaganda, inserindo deliberadamente informações enganosas e falsas em suas mensagens para fortalecer suas respectivas narrativas”, disse Nihal Abdellatif, coordenador de projetos da Beam Reports, uma organização independente de checagem de fatos fundada em 2021 em Cartum, mas que se mudou para Nairóbi, no Quênia, durante a guerra. “Temos testemunhado novas e cada vez mais sofisticadas formas de desinformação que se espalham mais rapidamente e são mais difíceis de verificar, principalmente o uso de inteligência artificial.”
Em mais um esforço para combater a propaganda, um grupo de jornalistas representando 20 veículos de comunicação independentes sudaneses formou o Fórum de Mídia do Sudão. O líder da iniciativa, Kamal Elsadig, que também é editor da Rádio Dabanga, uma organização de notícias sudanesa com sede em Amsterdã, descreveu-a como “uma aliança para apoiar e desenvolver a mídia, defender a liberdade de imprensa, a paz e a democracia, e combater o discurso de ódio, a informação enganosa e a desinformação”.
É uma tarefa árdua. “90% das instituições de mídia sudanesas foram danificadas ou completamente destruídas”, concluiu o Sindicato dos Jornalistas Sudaneses em um relatório de abril . O grupo afirmou recentemente que 32 jornalistas foram mortos desde o início da guerra e que muitos outros foram agredidos, detidos, torturados ou sequestrados. Uma das vítimas foi Halima Idris Salim, correspondente da Sudan Bukra, atropelada por um veículo das RSF enquanto fazia uma reportagem sobre as condições precárias em um hospital na cidade de Omdurman. Outra vítima foi o colunista freelancer Yahya Hamad Fadlallah, preso sob a acusação de colaborar com as RSF, torturado e privado de tratamento médico. Em outubro de 2025, combatentes das RSF sequestraram e detiveram Muammar Ibrahim, correspondente da Al Jazeera em El Fasher, alegando em um vídeo nas redes sociais que estavam investigando as reportagens “tendenciosas” do jornalista.
Para agravar o sofrimento, jornalistas sudaneses dizem que muitas vezes sentem que ninguém fora do país está prestando atenção. Em abril, 10 repórteres sudaneses que ainda estavam no país publicaram uma carta no jornal francês Le Monde. Nela, escreveram: “Nós, jornalistas sudaneses, apelamos a uma mobilização internacional para apoiar aqueles que informam vocês de dentro do país —arriscando suas vidas— seja na linha de frente ou em exílio forçado.”
CONFLITOS DA MÍDIA INTERNACIONAL
Nos primeiros dias da guerra, as organizações de notícias regionais e internacionais foram obrigadas a improvisar, como todos os outros.
Muitos veículos de comunicação em língua árabe tinham correspondentes no Sudão, mas a maioria estava entrincheirada em um prédio no sul de Cartum, onde as tomadas panorâmicas da cidade, feitas do telhado, só conseguiam capturar uma pequena parte da violência. A Al Arabiya/Al Hadath contratou Al Migdad Hassan, um farmacêutico com alguma formação em jornalismo que por acaso morava em uma área inacessível a outros repórteres. “Cartum era um caos nos primeiros dias da guerra, e minha 1ª transmissão ao vivo foi feita por 1 celular que um amigo segurava”, contou-me. “Sem muita experiência no início, havia medo, mas depois comecei a me entusiasmar com a ideia de cobrir reportagens arriscadas.”
Em novembro de 2023, a Al Jazeera Mubasher, canal da rede semelhante à C-SPAN, lançou um programa diário de 1 hora chamado “al-Harb al-Mansiya” (A Guerra Esquecida), que incluía um resumo diário dos acontecimentos e debates ao vivo com políticos e comentaristas de todo o espectro político sudanês. O apresentador Ahmed Taha, egípcio, tornou-se um dos favoritos entre os telespectadores sudaneses por sua disposição em desafiar seus convidados com perguntas difíceis. Em uma publicação típica, um usuário do X disse: “As pessoas no Sudão assistem ao Ahmed Taha em boates como se estivessem assistindo a uma partida de futebol”.
Quanto aos meios de comunicação globais, vários com divisões em língua árabe conseguiram fornecer alguma cobertura. A DW Arabic lançou o al-Sudan al-An —(Sudão Agora)— em 2023, e a BBC News Arabic dedicou um serviço de rádio de ondas curtas de emergência a notícias sobre o Sudão.
Jornalistas estrangeiros tinham poucas opções para entrar no Sudão. Uma possibilidade era cruzar a fronteira do Chade para o território controlado pelas RSF, mas os intensos combates geralmente tornavam essa opção muito perigosa. Muitos outros tentaram entrar por Porto Sudão, que era controlado pelo Exército, mas tiveram seus vistos negados.
Isso deu a Yousra Elbagir, correspondente da Sky News baseada em Joanesburgo, o que ela chamou de “vantagem de jogar em casa” sobre seus concorrentes. Cidadã britânica e sudanesa —e, portanto, isenta da exigência de visto— ela se tornou a 1ª jornalista ocidental a fazer reportagens no local para um veículo de comunicação em inglês. Ela entrou pelo Porto Sudão e convenceu as autoridades militares a permitirem a entrada de sua equipe também. Ela já havia coberto as evacuações de estrangeiros do Sudão para o Djibuti e depois para Jeddah, onde encontrou inesperadamente seu tio e o abraçou durante uma transmissão ao vivo. De dentro do Sudão, ela acompanhou o exército e registrou imagens da destruição do antigo mercado de Omdurman, além de fazer reportagens da casa saqueada de sua família.
Outros veículos tentaram acompanhar Elbagir, mas, na verdade, as esperanças de que o Sudão finalmente recebesse a atenção que merecia foram frustradas quase 6 meses depois do início da guerra, com o ataque do Hamas a Israel em 7 de outubro. No outono de 2023, a cobertura do Sudão diminuiu significativamente. “O ‘esquecimento’ do Sudão tem menos a ver com supervisão e mais com hierarquias de visibilidade nos ecossistemas de mídia globais e regionais”, disse Hussein AlAhmad, professor assistente de mídia e comunicação na Universidade Árabe Americana em Ramallah e especialista em cobertura midiática no mundo árabe. “Em termos de valor noticioso, ao contrário da Ucrânia ou de Gaza, o Sudão existe em um espaço liminar.”
Em dezembro daquele ano, os especialistas em Sudão Alex de Waal e Abdul Mohammed publicaram um artigo de opinião no New York Times com o título: “A guerra que o mundo esqueceu”. O artigo lamentava a fraca cobertura da mídia sobre o Sudão e argumentava que os Estados Unidos corriam o risco de se tornarem testemunhas silenciosas de um genocídio.
Três meses depois, em março de 2024, o Exército sudanês retomou o controle dos escritórios da Rádio e Televisão do Sudão em Omdurman e começou a conceder mais vistos a jornalistas estrangeiros. Entre eles estavam repórteres da BBC News Arabic, New York Times, Washington Post, Wall Street Journal, PBS News, CBS e Atlantic.
Acompanhar as tropas tornou-se a maneira mais segura para jornalistas viajarem pelo Sudão. Não era o ideal, já que os militares controlavam o que os repórteres podiam ver. Mas pelo menos o mundo exterior estava prestando mais atenção. Muitas dessas viagens foram organizadas pelo tenente-coronel Hassan Ibrahim, que lidava com os pedidos da mídia estrangeira para o exército. Ele foi morto em um ataque de drone das RSF em março, juntamente com outro repórter militar e 4 membros da equipe da TV Sudanesa, enquanto o Exército retomava o palácio presidencial. “O Coronel Hassan era um homem gentil e vibrante que amava o Sudão e nos mantinha seguros enquanto fazíamos reportagens”, publicou Leila Molana-Allen, correspondente do PBS News Hour, no X.
A cobertura jornalística dos meios de comunicação públicos dos EUA sofreu um revés desde que o governo Trump e o Congresso cortaram o financiamento. Em março, 2 jornalistas da Voz da América, que haviam acabado de passar duas semanas fazendo reportagens no Sudão, receberam avisos de que seriam colocados em licença administrativa, porque o Departamento de Eficiência Governamental estava desmantelando a Agência de Mídia Global dos EUA, que inclui a emissora. “Temos um material valioso e não podemos usá-lo agora”, disse-me um dos jornalistas. A eliminação da agência também acabou com o financiamento de Bayn Nilein, ou “Entre Dois Nilos”, 1 programa semanal sobre o Sudão que era transmitido pela Alhurra, emissora pertencente à Middle East Broadcasting Networks, com sede nos EUA.
Desde que saí de Cartum, tenho acompanhado de perto os acontecimentos e a cobertura da mídia. Escrevi sobre a guerra e participei de painéis sobre o assunto, na esperança de que mais pessoas tomem conhecimento do que está acontecendo. Apesar dos esforços dos jornalistas sudaneses, que lutam contra enormes dificuldades, ainda há muito a ser noticiado. “Acho que apenas 10% desta guerra foi coberta”, disse-me Mohamed Eltayeb, um jornalista sudanês que trabalhou para diversas emissoras de televisão via satélite em árabe.
Tudo isso me faz pensar: se uma das maiores crises humanitárias já registradas não justifica uma cobertura midiática robusta, muito além do que os repórteres locais podem oferecer, o que justificaria?
Isma’il Kushkush é um jornalista independente que já contribuiu para o The New York Times, The Washington Post, The New Yorker, The Atlantic, Smithsonian, Granta e outras publicações. Ele foi chefe interino da sucursal do The New York Times para a África Oriental, com sede em Nairóbi.
Texto traduzido por Lígia Saba. Leia o original em inglês.
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