Na Noruega, o autor recebe por livro emprestado

Quando se observa o fenômeno internacional da literatura escandinava, a atenção costuma recair sobre os romances policiais, os thrillers psicológicos e os grandes best sellers que ganharam leitores em dezenas de países. 

A marca Nordic Noir tornou-se quase um gênero próprio. Livrarias do mundo inteiro reservam prateleiras para autores suecos, noruegueses ou islandeses. O público associa imediatamente aquelas narrativas a paisagens geladas, crimes complexos e personagens atormentados. Mas por trás desse fenômeno editorial existe um elemento muito menos comentado e infinitamente mais estrutural: a biblioteca pública.

Nos países nórdicos, a biblioteca não é apenas um espaço cultural. Ela é parte da infraestrutura da sociedade. A Escandinávia construiu ao longo de décadas uma das redes bibliotecárias mais densas e utilizadas do planeta. Esse sistema criou a base sobre a qual o restante do ecossistema literário se desenvolveu.

A Finlândia talvez seja o exemplo mais impressionante. Com pouco mais de cinco milhões de habitantes, o país possui cerca de setecentas bibliotecas públicas espalhadas por seu território. 

Isso significa uma biblioteca para aproximadamente cada oito mil habitantes. 

Mas o dado mais revelador não é o número de prédios, e sim o comportamento da população. Estatísticas nacionais mostram que as bibliotecas finlandesas registram cerca de sessenta e oito milhões de empréstimos de livros por ano. Em média, cada habitante pega emprestados entre doze e quinze livros anualmente. Para efeito de comparação, a média europeia gira em torno de três livros por pessoa ao ano.

Na Suécia, a rede pública conta com aproximadamente mil e cem bibliotecas para uma população de cerca de dez milhões de habitantes. O sistema registra algo próximo de oitenta milhões de empréstimos anuais. O resultado é um índice médio de oito livros emprestados por habitante todos os anos. 

A Noruega apresenta números semelhantes. Com cerca de seiscentas bibliotecas municipais distribuídas pelo país, a rede mantém uma presença cultural constante em cidades pequenas, médias e grandes.

Essa densidade institucional produz um efeito que raramente aparece nas análises mais superficiais sobre literatura. Ela cria um público leitor estável, numeroso e habituado ao livro como parte da vida cotidiana. 

 

Circulação garantida

Quando um romance é publicado nesses países, ele encontra imediatamente um sistema de circulação consolidado. Bibliotecas compram exemplares, clubes de leitura discutem a obra, encontros literários aproximam escritores e leitores. A literatura não depende apenas da lógica comercial das livrarias, já que se apoia em uma rede cultural profundamente enraizada.

Existe ainda um segundo mecanismo pouco conhecido fora da Europa.

 

O autor recebe por livro emprestado

Na Noruega funciona o sistema conhecido como Public Lending Right, ou direito de empréstimo público. A lógica é simples e poderosa. Cada vez que um livro circula nas bibliotecas, o autor recebe uma compensação financeira proveniente de fundos públicos. Trata-se de um reconhecimento institucional de que o empréstimo gratuito não deve significar ausência de remuneração para quem escreveu a obra.

Esse mecanismo distribui anualmente cerca de cento e quarenta milhões de coroas norueguesas aos escritores. Convertido para valores internacionais, isso representa aproximadamente treze milhões de euros por ano destinados diretamente aos autores. 

A biblioteca, nesse caso, não é apenas um lugar de leitura. É também uma fonte de renda literária. O sistema garante que escritores continuem produzindo mesmo quando suas obras circulam predominantemente em empréstimos públicos.

 

Formação de público leitor

Outro aspecto relevante é o papel das bibliotecas na formação cultural permanente. As bibliotecas escandinavas funcionam como centros culturais ativos. Ali são realizados encontros com escritores, festivais literários, debates, clubes de leitura, programas infantis e projetos educacionais. Crianças entram em contato com livros desde cedo. Adultos encontram programação cultural regular. A literatura se mantém visível na vida social.

 

Índices de Leitura

Essas práticas ajudam a explicar por que os índices de leitura nesses países estão entre os mais altos do mundo. Pesquisas de hábitos culturais indicam que cerca de oitenta por cento dos finlandeses lê ao menos um livro por ano. 

Na Noruega esse índice gira em torno de setenta e cinco por cento. Na Suécia, aproximadamente setenta por cento da população mantém o hábito regular de leitura. Em termos comparativos, são números muito acima da média internacional.

Quando se observa o conjunto dessas informações, percebe-se que a biblioteca ocupa um lugar central no ecossistema literário nórdico. Ela forma leitores, garante circulação de obras, sustenta parte da renda dos autores e mantém a literatura presente na vida pública. 

Antes de exportar livros para o mundo, esses países asseguram que os livros circulem intensamente dentro de suas próprias sociedades.

Talvez seja essa a força silenciosa que sustenta o fenômeno literário da região. Enquanto o público internacional discute os detetives sombrios do Nordic Noir ou os enredos densos de suas narrativas criminais, a base do sistema permanece discretamente funcionando em milhares de salas de leitura espalhadas pela Escandinávia.

Ali, entre estantes acessíveis, programas culturais e leitores habituais, a literatura continua realizando aquilo que sempre fez de melhor: construir comunidade, formar imaginação e garantir que as histórias escritas em uma língua local tenham força suficiente para atravessar fronteiras.

 

Números e Contexto Recentes no Brasil (2024-2025):

 

Já no Brasil, a estimativa consolidada é de uma biblioteca pública para cada 33 mil habitantes.

Aproximadamente 46% da população brasileira diz que não existe biblioteca pública em seu bairro ou cidade.

A Pesquisa Retratos da Leitura 2024 indicou que cerca de 75% das pessoas não frequentam bibliotecas.

Apesar do baixo uso, 88% das pessoas que frequentam bibliotecas gostam dos espaços, 59% consideram a biblioteca um local para pesquisa ou estudo, enquanto apenas 18% a veem como espaço para empréstimo de livros.

Entre 2015 e 2020, o Brasil perdeu cerca de 764 bibliotecas públicas, segundo dados do Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas (SNBP).

Embora o número total seja baixo comparado a padrões internacionais, existem iniciativas locais, como a da Biblioteca Nacional de Brasília (BNB), que registrou um aumento de 79% em novos cadastros de usuários em 2024.

Enfim, nem tudo está perdido. 

Conhecer boas práticas internacionais pode nos ajudar a melhorar os nossos resultados. E claro, sensibilidade, compromisso e pressão nos agentes públicos para que a tal vontade política possa existir. Algo raro em nossa área permeada de muito discurso e iniciativas esparsas. 

Marcos Linhares é jornalista, escritor, professor e biógrafo. Atua há mais de duas décadas na promoção da leitura, políticas do livro e formação de autores. Foi presidente do Sindicato dos Escritores do DF e já coordenou a Feira do Livro de Brasília, projetos literários no DF e iniciativas educativas. É autor premiado nos Estados Unidos. Criou prêmios, programas e ações voltadas ao direito autoral, ao livro e à democratização da literatura.

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