É comum, no consultório, ouvir uma confissão que, à primeira vista, soa como um paradoxo da ingratidão: “Will, eu alcancei tudo. Tenho uma família sólida, bons filhos, estabilidade financeira e saúde. Teoricamente, eu deveria estar pleno, mas não consigo ser feliz. Sinto que não sei mais o que quero”. Esta frase, repetida por homens e mulheres que atravessam o meio da vida, não é um sintoma de depressão clássica, mas o diagnóstico de um fenômeno contemporâneo: o silenciamento do desejo.
Vivemos sob o império das funções. Somos demandados a ocupar papéis sociais com eficiência cirúrgica: o provedor, a mãe dedicada, o gestor resiliente, o cidadão exemplar. No entanto, nessa coreografia de máscaras, algo essencial se perde. O desejo é capturado e amordaçado por uma estrutura de papéis que aceitamos como se fossem nossa própria pele. É o nó que precisamos, com urgência e paciência, começar a desatar.
A identidade humana é um campo de batalha entre dois conceitos que o filósofo Paul Ricoeur distinguiu: a mesmidade (o “o que” eu sou) e a ipseidade (o “quem” eu sou). Desde o nascimento, somos “contados” pelos outros. Antes de termos voz, nossos pais, professores e a cultura já estão narrando nossa história.
Nesse momento, ocorre uma nomeação. A criança, buscando o amor e o reconhecimento do Outro, aceita esse rótulo. Na vida adulta, o indivíduo se identifica tanto com o papel que lhe foi atribuído que o seu desejo original é silenciado em favor da manutenção dessa máscara social.
Quando perguntamos a alguém “Quem é você?”, a resposta automática costuma ser uma lista de cargos e títulos: “Sou advogado”, “Sou engenheiro”, “Sou pai de dois”. Note que não respondemos quem somos, mas o que somos. Respondemos com objetos, com funções úteis ao sistema. O “quem”, que é fluido, desejante e poroso, fica escondido sob o verniz do desempenho.
O silenciamento do desejo tem um preço biológico e psíquico altíssimo: a perda da libido. Não falo aqui apenas do desejo sexual, mas da libido no sentido freudiano lato, a energia vital que nos faz ter vontade de acordar e transformar o mundo.
Quando passamos décadas agindo apenas por “sim, senhor” ou “pode deixar que eu faço”, estamos cedendo do nosso desejo. A psicanálise nos ensina que a única coisa da qual podemos ser realmente culpados é de termos cedido do nosso próprio desejo em favor do desejo do Outro. Esse sacrifício constante gera um esvaziamento. A pessoa olha-se no espelho e vê um profissional de sucesso, mas sente-se como um deserto por dentro. Ela se tornou um objeto perfeito de consumo e produtividade, mas deixou de ser um sujeito de sua própria história.
Esse processo é particularmente cruel com os homens. Educados sob um modelo que “homem não fala, homem resolve”. O silêncio masculino não é o silêncio da meditação budista, mas o silêncio da inibição. É um silêncio que explode em violência, em doenças psicossomáticas, no uso abusivo de substâncias ou no isolamento radical. O homem é ensinado a ser uma pedra: dura, impenetrável e, por fim, inanimada.
A saída para esse labirinto não é simples, nem rápida. Ela exige o que chamamos em psicanálise de retificação subjetiva. É o momento em que o sujeito para de culpar o mundo, os pais ou o chefe pela sua infelicidade e pergunta: “Qual é a minha parte na desordem da qual me queixo?” (Freud).
Fazer análise é, essencialmente, fazer uma separação. A palavra análise vem do grego analysis, que significa desatar, separar os componentes de um todo. No divã, começamos a separar o joio do trigo: o que nesta história é realmente meu e o que é apenas uma demanda que eu aceitei para agradar ao mundo?
Hoje, felizmente, o tabu sobre a terapia está ruindo. Fazer análise tornou-se, para muitos, um estilo de vida e um sinal de inteligência emocional. Especialmente para os homens, procurar ajuda não é mais um sinal de fraqueza, mas de coragem. As mulheres modernas, cada vez mais conscientes de suas próprias subjetividades, têm buscado parceiros que saibam nomear o que sentem, que tenham repertório para o diálogo e que não usem o silêncio como arma de controle ou fuga.
Para desatar o nó do silenciamento, proponho um exercício de honestidade intelectual: você consegue dizer quem é você sem citar sua profissão, seu estado civil ou seus bens? Se você retirar o “advogado”, o “pai” e o “provedor”, o que sobra desse núcleo desejante?
Lembrar-se de quem se era antes de o mundo nos dizer quem deveríamos ser é um ato revolucionário. Quais eram seus sonhos aos quinze anos? O que te dava prazer genuíno antes de a produtividade se tornar sua única régua? Não se trata de uma regressão infantil, mas de recuperar a vitalidade daquela criança para informar o adulto que somos hoje.
O desejo não é algo que se encontra pronto; é algo que se constrói e se sustenta. Sustentar o desejo é a prática ética mais difícil da existência humana, pois ela nos coloca em confronto direto com o julgamento alheio. Mas é apenas através desse “batismo da realidade” que podemos sair da posição de objetos contados pelos outros para nos tornarmos autores de nossa própria biografia.
A análise não promete a felicidade plena dos contos de fada, essa é uma fantasia infantil que nos adoece. A análise promete algo muito mais potente: a liberdade de desejar. E, ao libertar o desejo, a vida deixa de ser um peso a ser carregado e volta a ser um poema a ser escrito.
Portanto, cuide bem da sua falta. Não tenha medo do vazio que sente quando retira os seus rótulos sociais. É nesse vazio, nessa folha em branco da angústia autêntica, que o seu verdadeiro “quem” pode, finalmente, começar a falar.
Sempre é tempo de desatar o nó preso na garganta!
Prof. Dr. William Figueiredo é filósofo, psicanalista e educador físico. Pós-doutor em Psicologia pela Universidade Federal de Uberlândia e doutor em Ciências da Religião. Especialista em Psicopatologia e Bem-Estar Social pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa, atua com atendimento clínico online, supervisão e assessoria em desenvolvimento humano e educacional. Atua como professor colaborador na Pós-graduação da Universidade Metodista de São Paulo. Ministra palestras, formações e workshops voltados à escuta qualificada, saúde mental e processos educativos com ênfase em: Psicanálise, Neuroeducação, Aprendizagem Tangencial, IA e Educação Socioemocional.
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