Daniel Berlinsky detalha escolhas da releitura, fala sobre polêmicas e aposta em desfecho mais íntimo
Com todos os capítulos já disponíveis no streaming e a exibição ainda em curso na Band, “Dona Beja” permite uma nova percepção do público e é nesse ponto que o autor Daniel Berlinsky reforça: o projeto nunca foi pensado como um remake tradicional.
Os últimos episódios foram liberados na semana passada pela HBO Max, seguindo uma estratégia já consolidada da plataforma. “A liberação em blocos de cinco capítulos segue a estratégia da HBO para novelas de streaming, permitindo que o público escolha como quer assistir essa história: no ritmo mais tradicional, um capítulo por dia, quase como uma novela da TV aberta ou maratonando como uma série”, explica o autor.
Enquanto isso, a novela segue sendo exibida na Band, ampliando o alcance da história para além do streaming, mas sem alterar a concepção original do projeto.
E é justamente no desfecho que está uma das principais apostas da trama. Longe de um final clássico, Berlinsky opta por um fechamento mais interno do que externo. “Mais que finais felizes clássicos (casamentos, bebês, vitórias profisisonais e etc), a nossa novela quis jogar o foco em onde cada personagem chega internamente. Pode parecer mais melancólico para alguns, mas, para nós, é um fechamento mais fiel e verdadeiro”, afirma.
Essa escolha passa diretamente pela forma como ele decidiu olhar para a protagonista. Em vez de tratar Beja (Grazi Massafera) como uma figura histórica, o autor preferiu encará-la como um mito. “Meu maior cuidado foi olhar para ‘Dona Beja’ não como uma biografia, mas como uma lenda”, diz. A partir disso, ele buscou aproximar a personagem do público atual: “A ideia foi atualizar a história para dialogar com o presente, mantendo a força e a essência dessa mulher que sempre esteve à frente do seu tempo”.
Ao construir essa nova Beja, o maior desafio foi justamente preservar suas contradições. “O maior desafio foi não ‘organizar’ as contradições dela”, explica. Para ele, a força da personagem está exatamente nessa complexidade e isso se reflete no final. “Eu sempre enxerguei essa novela como uma grande história de amor. Amor próprio. E não é isso que Beja conquista no final?”.
A decisão de tratar o projeto como releitura — e não remake — também orientou toda a estética e a narrativa. “Isso que parece um rompimento foi, na verdade, uma escolha de fazer uma releitura, não um remake. O clássico continua ali, como base e inspiração, mas não como limite”, afirma.
Escrita inicialmente apenas para o streaming, a novela não sofreu adaptações ao migrar para a TV aberta. “Não. Quando eu escrevi, a novela era pensada exclusivamente para o streaming”, revela. Segundo ele, isso influencia diretamente o ritmo e a condução da história: “No streaming, o espectador é mais ativo, ele escolhe quando e como assistir”.
As atualizações na forma de retratar relações também foram responsáveis por dividir opiniões. “Personagens como Antonio (David Junior) que era visto como mocinho, hoje conseguimos reconhecer como tóxico”, pontua. Já nas relações femininas, a proposta foi romper com rivalidades tradicionais: “Porque mulheres não são só rivais, elas também se acolhem”.
Mesmo com forte repercussão nas redes sociais, Berlinsky garante que esse nunca foi um objetivo durante a escrita. “Eu não escrevi pensando em viralizar. Escrevi pra emocionar. São coisas diferentes”, diz. Ainda assim, reconhece o impacto do público digital: “Me surpreendi com a forma como o público se apropriou de algumas cenas”.
Para ele, o que mudou não foi a forma de escrever, mas a velocidade da resposta. “O que mudou foi a velocidade da conversa estabelecida com o público. E o barulho dela”, analisa. Com o projeto consolidado, o autor já aponta para os próximos passos. “No momento, o meu foco é desenvolver histórias originais”, afirma, sem descartar novas adaptações. Mas deixa claro: “Sempre tentando trabalhar com o conceito de releitura”.




