Expansão dos direitos precisa considerar mais as complexidades específicas da sociedade e menos o desejo de políticos movidos só por interesse eleitoral
A proposta de fim da escala 6 X 1 e diminuição da jornada de trabalho sem redução de salários começou a ganhar popularidade em 2024 a partir do Movimento Vida Além do Trabalho, liderado pelo então candidato a vereador no Rio Rick Azevedo (Psol). A mobilização se fortaleceu, ajudou a eleger Azevedo e ganhou projeção nacional principalmente pelas mãos da deputada Erika Hilton (Psol-SP), que apresentou uma proposta de emenda à Constituição sobre o tema.
O debate sobre a redução da jornada de trabalho ou qualquer outro é legítimo numa democracia, mas este Poder360 avalia que há açodamento no processo atual. É um erro achar que a melhor forma de adotar esse tipo de inovação seja por meio de mais uma regra constitucional rígida. O caminho adequado é preservar um núcleo de direitos e criar parâmetros para que jornada e escala sejam definidas por negociação entre trabalhadores e empregadores, respeitando as diferenças entre setores e a liberdade individual.
O fato é que há atropelo no debate. Uma parcela dos congressistas e o Palácio do Planalto pretendem aprovar a redução da jornada 6 X 1 antes das eleições de outubro. Mostram um interesse postiço sobre desejarem beneficiar trabalhadores. Miram na realidade algum êxito eleitoral com uma medida que pode vir a ser ser adotada sem a reflexão necessária.
Neste final de março de 2026, a PEC apresentada por Erika Hilton foi agrupada a outra medida já apresentada pelo deputado Reginaldo Lopes (PT-MG). Tudo tramita na Câmara dos Deputados. O presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB), encaminhou o texto à CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) e afirmou que o tema deve ser votado ainda em 2026, possivelmente em maio, daqui a menos de 2 meses.
O texto propõe o fim da escala semanal com 6 dias de trabalho e 1 de folga –comum em setores como comércio, serviços e indústria leve– e a redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais.
O que mais falta nas discussões sobre o fim da jornada 6 X 1 é considerar a existência de um fato incontornável: o Brasil é essencialmente um país pobre. A renda domiciliar per capita foi de R$ 2.316 em 2025. O Poder entende que pobreza deve ser combatida com trabalho, produtividade, inovação e criação de riqueza. As populações de todos os países ricos atuais tiveram grandes dificuldades no passado, que foram vencidas com muito trabalho duro.
No universo de quase 200 países do planeta, quem é rico hoje teve de crescer à custa de esforço incessante por décadas, sempre aplicando todas as forças e faculdades humanas para alcançar o desenvolvimento. Não existe uma nação na Terra que tenha enriquecido sem que seus habitantes trabalhassem muito. Depois, veio o Estado de bem-estar social.
Uma parte da elite política do Brasil tem preferido caminhar na direção oposta. Pensa ser possível oferecer todos os benefícios de países ricos sem que o Brasil antes consiga atingir um patamar mínimo de desenvolvimento. O Drive, newsletter para assinantes preparada pela mesma equipe que faz este jornal digital, publica anualmente um balanço de quanto se gasta com benefícios sociais no Brasil. Em 2025, os pagadores de impostos tiveram de bancar R$ 441 bilhões para sustentar vários programas de auxílio aos mais pobres.
Uma frase atribuída ao economista Antonio Delfim Netto (1928-2024) causou controvérsias nos anos 1970: “É necessário primeiro fazer o bolo crescer para depois reparti-lo”. A esquerda viu falta de humanidade nesse aforismo do então czar da economia. Não adiantou o próprio Delfim ter explicado várias vezes que só havia formulado algo prosaico: “Não se pode distribuir o que não foi ainda produzido”. O raciocínio é cartesiano. Difícil de ser refutado. Só que até hoje políticos e governantes em sua maioria seguem sem entender essa regra básica da economia.
Se estivesse vivo, Delfim talvez pudesse explicar com clareza que o Brasil não tem R$ 441 bilhões por ano para gastar em programas sociais, apesar de ser necessário o Estado manter uma rede de proteção para os mais vulneráveis –como até os economistas mais ortodoxos, inclusive da escola austríaca, sempre defenderam. Ocorre que parte desses gastos no Brasil é feita para atender pessoas que não são exatamente miseráveis. Essa é uma realidade dura de ser compreendida pelos políticos e por parte da sociedade.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai entregar um botijão de gás para aproximadamente 15 milhões de brasileiros a cada cerca de 2 meses. Em 23 de março de 2026, o governo petista mandou nesse único dia 8 milhões de mensagens via WhatsApp dizendo: “Leve seu botijão vazio e troque por um cheio”. O assistencialismo segue em alta no país e é elevado ao paroxismo em anos eleitorais.
É necessário lembrar esse contexto sobre o tamanho do welfare state brasileiro para entender o debate a respeito da redução da escala 6 X 1.
O Brasil (ou uma parte do Brasil) pensa que já é grande. Comporta-se como país rico ao fazer suas políticas sociais. Só que é uma nação com baixíssima produtividade e que tem tamanho diminuto na economia mundial. Não fosse a riqueza produzida pela exportação de commodities (agro, petróleo e mineração), a situação seria ainda mais trágica.
O debate sobre a redução da escala 6 X 1 é irmão siamês do argumento a respeito da necessidade de aumentar ad infinitum o welfare state antes de o país ter condições reais de oferecer tais benefícios. Só que é quase proibido observar que se trata de uma anomalia o país ter muitos Estados com mais beneficiários do Bolsa Família do que pessoas com emprego com Carteira de Trabalho assinada.
Experimente falar em público que o Brasil talvez não devesse ter mais de 19 milhões de beneficiários no Bolsa Família e prepare-se para ser classificado como reacionário, fascista ou até genocida. O mesmo vale para quem ousa sugerir que está errado o debate sobre o fim da escala 6 X 1.
Instalou-se em parte da sociedade e dentro do Congresso uma atitude refratária e negacionista se alguém propõe tratar com cautela a proposta de reduzir a jornada de trabalho por meio de lei. Defensores messiânicos do projeto atuam como se houvesse uma determinação divina impondo ao Brasil uma restrição do horário de trabalho. De maneira simples, a mensagem (errada) é sempre esta: só haverá justiça social e mais humanidade nas relações entre capital e trabalho se o Congresso baixar uma regra para todos trabalharem menos.
Nunca é demais lembrar que muitas categorias de trabalhadores já trabalham em escala 5 X 2. Há uma estimativa de que 2/3 das pessoas com emprego com Carteira de Trabalho assinada não tenham ocupações com jornada 6 X 1.
Há também leis de todos os tipos restringindo o número de horas que cada profissional pode trabalhar por semana.
Tome-se o caso de jornalistas: uma lei determina que esses profissionais só podem trabalhar 5 horas por dia e fazer, no máximo, duas horas extras diárias. Muitos países mais ricos que o Brasil não têm essa limitação de horário de trabalho para jornalistas. Não por acaso, essa é uma das profissões no Brasil que mais perde postos formais de trabalho pelas regras da CLT –houve uma queda de 31% em cerca de uma década na oferta de emprego para jornalistas.
HISTÓRICO
A Constituição de 1988 estabeleceu a jornada semanal máxima de 44 horas. Só é possível alterá-la por meio de PEC, que exige 2/3 de votos favoráveis na Câmara e no Senado. O texto constitucional autoriza a escala 6 X 1 ao exigir só “repouso semanal remunerado, preferencialmente aos domingos”.
A mudança, de grande apelo popular, encontra pouca resistência explícita entre congressistas, sejam governistas ou de oposição. Em ano eleitoral, poucos se arriscam a ir contra uma proposta que amplia direitos trabalhistas.
Mas ainda há debates sobre o formato da proposta e a extensão da redução da jornada que será aprovada. O deputado Reginaldo Lopes diz que há convergência sobre a adoção de jornada semanal de 40 horas e da escala 5 X 2 (5 dias de trabalho e 2 de descanso). Só que reconhece que alguns setores podem exigir modelos próprios, como os de saúde, de segurança pública e de serviços (bares, restaurantes, shoppings e comércio em geral).
O argumento a favor da proposta é que uma jornada de trabalho menor significa mais tempo de lazer e para tarefas domésticas e de cuidado com a família. Quem poderia discordar?
Só que a economia é um sistema complexo, longe de binarismos e simplificações. Mesmo propostas evidentemente positivas podem ter efeitos indesejados em um cenário amplo e de longo prazo.
CUSTOS
As principais vozes contra a proposta da escala 6 X 1 vêm do setor produtivo e de serviços. Empresários e executivos citam 2 fatores: o custo sobre as empresas e um possível efeito negativo sobre a produtividade.
Diversos estudos já foram feitos sobre o tema. Um dos mais recentes (íntegra em PDF – 1,3 MB), do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), indica que o custo do trabalho aumentaria 7,84% com a mudança, mas traria benefícios reduzidos em parte relevante da economia.
Segundo os pesquisadores do Ipea (uma fundação pública federal vinculada ao Ministério do Planejamento), o impacto seria comparável aos maiores reajustes de salário-mínimo, que foram absorvidos e não resultaram em queda no nível de emprego. Obviamente os economistas ligados ao governo parecem preferir não levar em conta o efeito nefando da indexação de quase tudo na economia, muitas vezes tendo custos mais elevados toda vez que o salário mínimo é reajustado.
Já as análises mais realistas de entidades setoriais mostram efeitos mais pesados:
- a CNC (Confederação Nacional de Comércio) estima que haveria um aumento de até 13% nos preços pagos pelos consumidores e uma alta no custo operacional de R$ 122 bilhões por ano para o comércio e R$ 235 bilhões por ano para os serviços;
- a CNI (Confederação Nacional da Indústria) estima uma despesa adicional de R$ 87,8 bilhões em horas extras ou de R$ 58,5 bilhões com novas contratações provocadas pela redução na jornada;
- a FecomercioSP acaba de divulgar um levantamento sobre o tema: a redução da jornada semanal de trabalho de 44 para 40 horas pode provocar um custo adicional de R$ 158 bilhões para as empresas. Se o corte for para 36 horas, o impacto seria maior e poderia chegar a R$ 610 bilhões.
É sempre útil olhar todas essas estimativas com um grão de sal. Pode haver exageros. Ainda assim, não se conhece um estudo sustentando que o fim da jornada 6 X 1 teria resultado neutro no custo das empresas.
O maior efeito, também é consenso, tende a ser sentido nas pequenas e médias empresas, que têm menos capacidade de absorver os aumentos de custo e poderiam ter seus negócios inviabilizados ou migrar para a informalidade. Vale lembrar que as pequenas empresas são as maiores empregadoras do país.
Pense num pequeno restaurante ou numa franquia da Casa do Pão de Queijo. O dono desse estabelecimento muitas vezes tem 5 ou 10 funcionários, se tanto. Abre os 7 dias da semana. Se respeita todas as regras e paga todos os impostos, tem uma margem de lucro apertada. Com o fim da escala 6 X 1, esse negócio terá as seguintes opções:
- 1) contratar mais funcionários e reduzir o lucro, que já é diminuto;
- 2) parar de pagar impostos e atuar na informalidade;
- 3) contratar mais funcionários, repassar os custos para os produtos, ver o número de clientes cair e rapidamente ir à falência.
Poucos deputados e senadores pensam no exemplo acima.
PRODUTIVIDADE
Há um tema complexo e sensível para o desenvolvimento de longo prazo do país: produtividade.
A produtividade é um conceito que pode ser mensurado de diversas formas, mas em geral representa o quanto um trabalhador produz em valor durante o tempo que trabalha.
Esse indicador é um dos principais para calcular a capacidade de um país crescer e elevar o padrão de vida das famílias. Quanto maior for a produtividade, mais competitiva é uma nação no mercado mundial para oferecer e vender seus produtos. E mais condições tem para sustentar o desenvolvimento mesmo sem crescimento populacional acelerado.
É nessa frente que o Brasil se encontra empacado. Enquanto o país registra números recordes de emprego, com a desocupação no menor patamar da história, a produtividade teve só ganhos marginais desde 2012.

No cenário internacional, o país vem perdendo competitividade frente a economias estabelecidas e emergentes.
A produtividade do trabalho dos brasileiros em 1950 era 24,5% da produtividade dos norte-americanos. Chegou a 46% em 1980. Mas depois o Brasil perdeu o ritmo. Os EUA aceleraram. Os brasileiros regressaram para 24,4% dos norte-americanos em 2023.
O Brasil fica atrás inclusive de outras nações emergentes que também estagnaram ou tiveram queda de produtividade, como México e Chile.

Diversos fatores influenciam a produtividade além do total de horas trabalhadas: nível de educação e qualificação dos trabalhadores, volume de capital investido no sistema de produção, nível tecnológico, distribuição dos postos de trabalho, até regras tributárias e legislação trabalhista.
Uma coisa é certa: o fim da jornada 6 X 1 não é um pó de pirlimpimpim, usado pela boneca Emília de Monteiro Lobato, que fará os trabalhadores brasileiros serem mais produtivos da noite para o dia.
No Brasil, um fator relevante para manter a produtividade sofrível em tempos de pleno emprego é a baixa qualidade das vagas de trabalho criadas. Números do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) mostram que o salário médio dos empregados formais admitidos em janeiro de 2026 caiu 1,8% em relação aos admitidos em janeiro de 2020.
Ou seja, o país sustenta os ótimos níveis de emprego com base em vagas com baixo valor agregado e péssima produtividade, muitas delas impulsionadas pelo crescimento do consumo associado aos estímulos fiscais da economia.
Ocorre que esse crescimento alavancado pelo gasto estatal não é sustentável no longo prazo. O governo do presidente Lula nega que a dívida pública esteja em trajetória explosiva, mas os números contam outra história. Com a dívida andando de forma destrambelhada, a inflação sai de controle e a curva de crescimento embica para baixo.
O aumento da produtividade é o único meio de garantir o crescimento seguro da economia no longo prazo. Ainda mais considerando que o Brasil já caminha para fase final de seu bônus demográfico e terá que lidar em breve com a queda na população ativa em relação aos aposentados.
Sem resolver a equação da produtividade, fica condenado o aumento da qualidade de vida da população via gastos estatais e eventual redução da jornada de trabalho. Nesse contexto, impor por via constitucional uma redução uniforme da jornada ignora diferenças fundamentais entre setores e níveis de produtividade —e limita a capacidade de empresas e trabalhadores negociarem soluções mais eficientes para cada realidade.
O governo argumenta que uma jornada com menos dias e menos horas trabalhadas proporciona mais tempo de descanso, estudo e qualificação aos trabalhadores, o que se traduziria em aumento de produtividade futura. Também diz que o maior tempo de lazer, sem redução salarial, estimularia o consumo e compensaria com demanda a queda no tempo trabalhado.
Em geral, são citados casos de países já prontos e que adotaram a redução da jornada. O fato é que não existe um exemplo prático de um país com a proporção e diversidade do Brasil, com todas as carências que ainda existem por aqui e que tenha só colhido efeitos positivos ao determinar, por lei, que todos têm de trabalhar menos.
Exceto nefelibatas, ninguém com honestidade intelectual tem segurança sobre as proporções dos efeitos que serão causados pela eventual adoção da PEC proposta pela deputada Erika Hilton. Toda essa discussão vem sendo feita de forma aloprada para que os políticos possam usar essa medida em seus discursos neste ano eleitoral. Querem aprovar a medida, faturar mais votos em outubro e o futuro do país que se dane.
O governo não apresentou estudos robustos que corroborem as suposições sobre impactos positivos na economia. Uma análise feita pelo pesquisador Daniel Duque, da FGV (íntegra – PDF, 678 kB), estima que a redução da jornada para 40 horas semanais implicará em perda de 2,8% no PIB em um cenário-base.
Em um cenário mais otimista, com ganhos de produtividade decorrentes do maior tempo de descanso, as perdas ainda assim seriam de 2,1%. É uma enormidade num país cuja economia anda de lado há décadas.

DEBATE INTERNACIONAL
A discussão sobre as jornadas de trabalho, flexibilidade e produtividade não é exclusividade do Brasil. Países em diferentes estágios de desenvolvimento realizaram experiências recentes envolvendo tanto a redução da jornada de trabalho quanto a flexibilização de normas trabalhistas para dar maior liberdade aos contratos.
Economias mais ricas, especialmente as europeias, realizaram diversos testes nos últimos anos com redução de jornada de trabalho e, inclusive, escala 4 X 3. Os resultados, em geral, indicaram pouca perda ou até ganho de produtividade dos trabalhadores com a escala mais flexível.
Só que essas nações já estão prontas. São ricas. Têm infraestrutura praticamente completa em todos os setores. A dívida na maior parte dos casos está controlada. As pessoas têm mais dinheiro para consumir em seu tempo livre.
Para resumir de forma bem simples: esses países hoje desenvolvidos escolheram primeiro trabalhar para depois descansar um pouco mais.
A diferença fica evidente na jornada média de trabalho quando se percebe o que se passa nos países ricos e nos mais pobres:

O quadro acima mostra uma realidade dolorosa para alguns políticos brasileiros: os países mais ricos são mais ricos não porque trabalham menos, mas porque trabalharam muito mais no passado e hoje podem desfrutar de jornadas menos intensas.
Algumas economias em desenvolvimento buscam um caminho oposto ao hoje imaginado pelo Brasil. Em vez de criar uma regra constitucional rígida determinando quanto cada pessoa pode ou deve trabalhar, preferem tentar acelerar o crescimento flexibilizando as regras trabalhistas e cobrando menos impostos. A Argentina aprovou recentemente uma reforma que permite contratos mais flexíveis, reduz os custos das empresas e facilita negociações individuais e coletivas –embora a Justiça argentina tenha apresentado obstáculos ao que o Congresso do país vizinho havia aprovado de forma soberana.
O México aprovou em fevereiro um projeto que reduz gradualmente a jornada de trabalho de 48 horas para 40 horas semanais, mas amplia o limite semanal de horas extras e mantém a possibilidade de escala 6 X 1.
A China, apesar de ainda ter um nível de produtividade bem abaixo de outras economias ricas, foi o país com maior crescimento desse indicador nas últimas décadas. O país se beneficiou de um boom populacional, grandes doses de investimento estatal e altíssima intensidade nas escalas de trabalho, com a famigerada escala 9-9-6 (trabalho das 9h da manhã às 9h da noite, 6 dias por semana) e sem sistema universal de direito a férias.

Em comum, as experiências internacionais mostram que mudanças desse tipo tendem a ser implementadas com algum grau de flexibilidade –seja por negociação coletiva, seja por transições graduais– e não por imposições constitucionais rígidas.
TRABALHO EM TRANSFORMAÇÃO
Assim como o debate sobre as jornadas não é uma exclusividade do Brasil, o tema das transformações no mercado de trabalho não pode ficar restrito à extensão da jornada e à escala de descanso.
Essas são só duas facetas de uma mudança mais ampla na organização do trabalho no Brasil.
A verdade é que a CLT e o emprego privado com Carteira de Trabalho assinada estão cada vez mais concentrados em cargos de baixo valor agregado. Fenômenos paralelos de transformação na sociedade fazem com que cada vez mais trabalhadores e empreendedores busquem outros caminhos de renda: trabalho mediado por aplicativos (motorista, entregas e outros serviços), como contratados individuais via pessoa jurídica e como empresários individuais (MEIs e microempresários).
O Brasil recentemente bateu seus recordes de abertura de CNPJs de pequenos negócios ativos e de novos MEIs (microempresários individuais).

Temas como as chamadas uberização e pejotização estão em análise no Supremo Tribunal Federal e podem ser julgados neste ano. A depender do que decidir o STF, haverá alteração da dinâmica de mais leis das relações de trabalho.
Um exemplo de caso que está em debate no Supremo, relatado pelo ministro Gilmar Mendes: trabalhadores com alto salário que preferem ser contratados como pessoa jurídica. Pessoas que recebem acima de 10 salários-mínimos, por exemplo, têm capacidade financeira e intelectual para decidir a melhor modalidade de contratação de seus serviços.
Esses trabalhadores –que correspondem a só 2,5% da força de trabalho formal– poderiam perfeitamente ter autonomia para optar por uma modalidade de contrato terceirizado. Não precisam do Estado para tutelar a forma como preferem ser contratados.
Já há precedente no STF, em que o ministro Roberto Barroso deu ganho de causa em 2023 a um escritório de advocacia que foi processado por uma advogada que era terceirizada e, depois de sair, quis receber de forma retroativa valores como se tivesse sido contratada via CLT. O ministro negou o pedido, alegando que a advogada sabia perfeitamente que estava ganhando mais e pagando menos impostos por ser terceirizada e, portanto, não cabia o argumento de que deveria receber as verbas rescisórias como se tivesse trabalhado pelas regras da CLT.
O princípio aplicado nesse caso, de garantir as condições mínimas aos trabalhadores, mas permitir uma flexibilidade que possa beneficiar as partes em casos específicos, é o mesmo que deve nortear o debate sobre a redução da jornada de trabalho.
É fogo fátuo a sensação de alívio para os trabalhadores que podem se sentir beneficiados pela redução imediata da escala 6 X 1. Se a economia sofrer um baque, todos perdem. Além disso, parece ser um contrassenso numa sociedade democrática e liberal proibir alguém que não seja hipossuficiente nem tenha limitações cognitivas de aceitar trabalhar 6 dias por semana para poder aumentar sua renda.
Muitos setores, como o comércio, um dos maiores empregadores do país, têm trabalhadores que recebem comissão por vendas além do salário-base. Restringir a jornada desses indivíduos pode ser uma trava limitadora importante sobre a renda, a contragosto desses próprios funcionários.
A liberdade desses brasileiros que querem trabalhar mais horas para alcançar uma renda maior deveria ser respeitada com uma lei que preservasse a possibilidade de acordo para essa opção.
FLEXIBILIDADE COM GARANTIAS
A economia brasileira, grande e complexa, é marcada pela heterogeneidade. O país tem, ao mesmo tempo, e muitas vezes sob o mesmo guarda-chuva de regras, setores de alta produtividade, com grande avanço tecnológico, e outros de baixa complexidade, mas com exigência intensiva de mão de obra. Agropecuária, indústria, comércio e serviços operam juntos com realidades de trabalho muito distintas.
Diante dessa diversidade, impor um único modelo de jornada para toda a economia pode causar distorções. Não faz sentido a mesma regra ser válida para uma empresa de tecnologia, para um pequeno bar da esquina, para um shopping center, para uma montadora de automóveis e para um hospital. Cada negócio tem demandas específicas. Ignorar as idiossincrasias de cada setor da economia é como desejar revogar por decreto a lei da oferta e da procura.
O próprio presidente Lula já indicou a necessidade de jornadas diferenciadas para certas categorias. Só que isso ainda não está claro no que se ouve dentro do Congresso.
A reforma trabalhista de 2017 (lei 13.467) introduziu o princípio do negociado sobre o legislado. Estabeleceu que acordos e convenções coletivas podem prevalecer sobre a lei em temas como jornada de trabalho, banco de horas e planos de cargos e salários.
O mesmo princípio deveria ser levado em conta na discussão de agora. Cristalizar no texto constitucional uma regra que vai afetar de maneira muito irregular diferentes setores da economia pode ter o efeito indesejado de prejudicar justamente os trabalhadores de menor renda. O Congresso constituinte em 1988 colocou na Constituição que a taxa de juros máxima só poderia ser de 12% ao ano. Não deu certo. Anos depois, esse artigo estrambótico foi revogado.
A Constituição e a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) já têm um amplo núcleo de proteção a todos os trabalhadores, estabelecendo condições de trabalho que não podem ser desrespeitadas. A partir daí, cada setor e grupo de trabalhadores, com suas representações sindicais, deveria poder negociar arranjos específicos.
O Brasil precisa de um modelo que potencialize sua força de trabalho. Preserve os direitos fundamentais dos trabalhadores, mas mantenha a flexibilidade necessária para se adaptar a uma economia complexa e com muitas particularidades.
Tirar o melhor de cada setor da economia é quase impossível por meio de artigos generalistas calcificados na Constituição. A Carta Magna brasileira já é pródiga em estabelecer muitos direitos e poucos deveres, com um texto repleto de pontas soltas, remendos e costuras irregulares.
A redução da jornada de trabalho pode ser pleiteada por parte da sociedade. É legítimo que existam defensores dessa tese. Só que a sua implementação exige flexibilidade, negociação e adaptação às diferentes realidades econômicas.
Transformar essa discussão em um mandamento constitucional rígido pode produzir o efeito oposto ao desejado: menos liberdade para trabalhadores, mais custos para empresas e riscos adicionais para o crescimento econômico.
A tarefa não é fácil para os legisladores. Mas lidar com os problemas crônicos da baixa produtividade e do crescimento estagnado é trabalho ainda mais árduo.




