ICIJ (Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos) faz seminário sobre como foi possível coordenar o trabalho de 376 repórteres em 76 países trabalhando em segredo para analisar 11,5 milhões de documentos
A série Panama Papers completa 10 anos nesta 3ª feira (31.mar.2026). Trata-se de um marco do jornalismo investigativo global. Publicada em 2016, a investigação revelou como políticos, empresários e figuras públicas em todo o mundo utilizavam empresas offshore em paraísos fiscais para movimentar recursos com baixa transparência.
O trabalho foi coordenado pelo ICIJ (Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos) a partir de um vazamento de 11,5 milhões de documentos do escritório panamenho Mossack Fonseca. Os arquivos foram obtidos pelo jornal alemão Süddeutsche Zeitung e compartilhados com uma rede internacional de jornalistas.
Ao todo, 376 repórteres de 76 países participaram da apuração, realizada ao longo de cerca de 1 ano sob rigoroso sigilo. O material analisado somava cerca de 2,6 terabytes de dados, incluindo e-mails, contratos, registros bancários e documentos corporativos produzidos entre 1977 e 2015.
Brasil entre os participantes
No Brasil, o Poder360 foi um dos veículos parceiros da investigação, ao lado do jornal O Estado de S. Paulo e da RedeTV!. As equipes analisaram dados ligados a pessoas com endereço no país e cruzaram informações com listas de autoridades e agentes públicos.
Leia todas as reportagens do Poder360 neste link.
Entre os procedimentos adotados, os jornalistas verificaram nomes de pessoas politicamente expostas, conhecidas pela sigla PEP, e fizeram cruzamentos com bases de congressistas federais, estaduais e vereadores de grandes cidades. Reportagens publicadas à época mostram que políticos citados negaram irregularidades ou não comentaram os dados revelados.
O Poder360 revelou offshores de empreiteiros, lobistas, políticos de todos os espectros ideológicos, esportistas e artistas.
Como foi feita a investigação
O volume e a complexidade dos dados exigiram o uso de ferramentas tecnológicas avançadas e uma metodologia inédita de colaboração internacional.
O ICIJ desenvolveu plataformas seguras para compartilhamento de informações, permitindo que jornalistas de diferentes países acessassem os documentos e trabalhassem de forma coordenada. A comunicação entre as equipes foi feita por canais criptografados, e o acesso aos dados foi restrito até a publicação simultânea das reportagens.
Os arquivos foram indexados e organizados com o uso de softwares específicos, o que possibilitou a busca por nomes, empresas e conexões. As equipes dividiram o trabalho por temas e países e realizaram checagens cruzadas para confirmar as informações.
A investigação revelou mais de 214 mil empresas offshore vinculadas a indivíduos e grupos em diversas partes do mundo, muitas delas associadas a esquemas de evasão fiscal, ocultação de patrimônio e, em alguns casos, corrupção.
Legado da série
Uma década depois, os Panama Papers são considerados um divisor de águas no jornalismo. O modelo de colaboração internacional adotado pelo ICIJ passou a ser replicado em outras investigações de grande escala, como Paradise Papers e Pandora Papers.
A série também consolidou o uso de técnicas de jornalismo de dados em apurações complexas e demonstrou o potencial de reportagens produzidas simultaneamente em dezenas de países.
Os Panama Papers seguem como o maior vazamento de dados já analisado por jornalistas e um dos episódios mais relevantes na exposição de estruturas financeiras globais opacas.




