Vivemos um tempo de binarismos ruidosos. Nas arenas digitais, proliferam manuais de conduta que prometem resgatar uma suposta “essência” do masculino ou do feminino, como se o gênero fosse uma verdade biológica imutável, inscrita no DNA e imune à cultura. No entanto, ao observarmos as patologias do laço social contemporâneo (o isolamento emocional masculino, a violência e a dificuldade de homens em nomear seus afetos), percebemos que essa “essência” é, na verdade, uma armadura que sufoca a própria condição humana. Para desatar esses nós, precisamos convocar vozes que, embora distintas, convergem para uma mesma urgência: a de que o ser humano não é um ponto de partida, mas um projeto em constante construção.
A máxima de Simone de Beauvoir em O Segundo Sexo, “não se nasce mulher, torna-se mulher”, costuma ser lida como o manifesto fundante do feminismo moderno. Contudo, sua potência ontológica é universal.
“Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam de feminino.” (BEAUVOIR, 1970)
Se a mulher se torna mulher ao adotar (ou ser capturada por) uma cultura que define seus papéis, o mesmo processo ocorre com o homem. Ninguém nasce “homem” no sentido social do termo; nasce-se um corpo biológico sobre o qual a cultura projeta um script rígido de negações.
Tornar-se homem, na nossa civilização, tem sido historicamente um exercício de subtração. Para ser “muito homem”, ensina-se que é preciso ser “pouco humano”. Subtrai-se a lágrima, subtrai-se o cuidado, subtrai-se a vulnerabilidade. Se a feminilidade foi construída sob o mito da passividade, a masculinidade foi erguida sob o mito da invulnerabilidade. O problema é que a vulnerabilidade não é uma característica feminina; ela é o traço mais elementar da finitude humana. Quando negamos ao homem o direito ao afeto e ao carinho, não estamos preservando sua virilidade, estamos amputando sua humanidade.
Para compreender como essa engrenagem funciona no cotidiano, é preciso recorrer ao conceito de performatividade de Judith Butler. É comum confundirmos “performance” com “desempenho” (o achievement da lógica neoliberal: ser o melhor, o mais forte, o mais produtivo). Mas, na perspectiva antropológica e na teoria de Butler, a performance é uma ação simbólica, uma teatralização da própria experiência.
“O gênero é a estilização repetida do corpo, um conjunto de atos repetidos no interior de um quadro regulador altamente rígido, que se cristaliza no tempo para produzir a aparência de uma substância, de um tipo natural de ser.” (BUTLER, 2003)
O gênero não é o que somos, é o que fazemos repetidamente. É um conjunto de atos, gestos e falas que, de tanto serem reiterados, criam a ilusão de uma substância interna natural. O homem que se recusa a abraçar um amigo ou a admitir um medo não está seguindo sua natureza; ele está performando um papel para uma plateia invisível que o vigia constantemente. A masculinidade torna-se, assim, uma performance de vigilância: o homem vigia a si mesmo para garantir que nenhum elemento “estranho” (leia-se: humanizado/afetivo) escape pelas frestas de sua armadura. A ação aqui é símbolo; cada gesto de dureza é um sinal emitido ao grupo para reafirmar o pertencimento a uma casta que não se permite falhar.
Nesse cenário, a psicanálise de Jacques Lacan traz uma contribuição provocativa e frequentemente mal compreendida: a afirmação de que “A Mulher não existe”. Com isso, Lacan não nega a existência dos seres humanos que se identificam como mulheres, mas aponta que não há um significante universal, uma essência única ou uma definição totalizante do que é “ser mulher”. O feminino escapa à apreensão total da linguagem; ele é, por definição, alteridade e abertura.
“A Mulher não existe. […] Não existe A Mulher, artigo definido para designar o universal. Não existe A Mulher porque, em sua essência própria, ela não é toda.” (Lacan, 1985)
Quando trazemos essa ideia para o diálogo sobre masculinidade, percebemos que o homem, muitas vezes, tenta compensar essa inexistência de uma essência feminina criando um “ideal de homem” que seja o oposto absoluto de qualquer coisa que ele fantasie como sendo o feminino. Se “A Mulher” não existe como essência, a “Masculinidade” também não existe como um dado da natureza. Ambos são construções que tentam velar o vazio e o desamparo inerentes ao sujeito.
O homem que se agarra ao desempenho heroico e reprime seus afetos está, no fundo, tentando fugir do seu próprio desamparo. Ele usa a norma de gênero como um fetiche para esconder sua castração simbólica. Ao não aceitar que o feminino (enquanto abertura ao outro, enquanto cuidado e afeto) habita também o seu próprio ser, o homem torna-se escravo de uma imagem especular de dureza que o isola da vida.
É urgente descolonizar os afetos. O cuidado, a escuta, a capacidade de lidar com as próprias emoções e de expressar o amor não são propriedades exclusivas de um gênero. São, na verdade, os elementos que nos permitem sustentar a existência em comum.
A cultura das redes sociais, com seus “redpills” e defensores de uma masculinidade arcaica, tenta vender a ideia de que a humanização do homem é uma fraqueza. É o contrário. A verdadeira força reside na capacidade de desatar os nós dessas performances automáticas.
Aprender a falar sobre o que se sente, aprender a acolher o outro e a ser acolhido, não torna um homem “menos homem”. Torna-o, finalmente, um sujeito. Se “não se nasce homem, torna-se homem”!
Que possamos escolher um tornar-se que não exija o sacrifício da sensibilidade.
Desatar nós em sua plenitude afetiva, ética e humana!
BEAUVOIR, Simone de. O Segundo Sexo: Fatos e Mitos. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1970.
BUTLER, Judith. Problemas de Gênero: Feminismo e Subversão da Identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.
LACAN, Jacques. O Seminário, livro 20: mais, ainda. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985.
Prof. Dr. William Figueiredo é filósofo, psicanalista e educador físico. Pós-doutor em Psicologia pela Universidade Federal de Uberlândia e doutor em Ciências da Religião. Especialista em Psicopatologia e Bem-Estar Social pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa, atua com atendimento clínico online, supervisão e assessoria em desenvolvimento humano e educacional. Atua como professor colaborador na Pós-graduação da Universidade Metodista de São Paulo. Ministra palestras, formações e workshops voltados à escuta qualificada, saúde mental e processos educativos com ênfase em: Psicanálise, Neuroeducação, Aprendizagem Tangencial, IA e Educação Socioemocional.
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