Há compositores que escrevem canções. E há aqueles que escrevem memória, emoção, identidade. Serginho Meriti (nome artístico de Sérgio Roberto Serafim, nascido em 1958 no Rio de Janeiro, criado em São João de Meriti) pertence a essa segunda linhagem.
Poeta de cadência rara, artesão de imagens simples e devastadoras, ele é desses autores que fazem o Brasil cantar sem perceber que está recitando poesia.
O que chamamos de “letra” em casos assim é pouco. Há ali ritmo, respiração, pausa, intenção. A música não veste o texto, ela o prolonga. A palavra não acompanha a melodia que já nasce pedindo som. É nessa dobra delicada entre verso e batida que mora a força de Meriti.
Quando ouvimos: “Deixa a vida me levar, vida leva eu”, não estamos apenas diante de um refrão. É uma filosofia inteira comprimida em poucas sílabas. Uma ética da entrega, um jeito brasileiro de sobreviver ao peso dos dias.
A grande poesia sempre soube disso. Desde antes do papel, ela já dependia da voz, do corpo. Já era canto, reza pagã, celebração coletiva. A música popular herdou essa chama. E alguns compositores, como Serginho, a mantém acesa com uma dignidade quase teimosa.
Em “Clareou”, por exemplo, há mais do que alegria. Temos travessia e renascimento.
“E quando menos esperar/ Clareou”. É o instante em que a dor se rende ao dia e o coração respira depois da tempestade.
O que impressiona em sua obra é justamente essa capacidade de tocar sem recorrer ao excesso. Nada é rebuscado, mas tudo é profundo. Não grita e permanece. Suas letras entram suaves e ficam para sempre, como se já estivessem dentro de nós antes mesmo de serem ouvidas.
E então vem a comparação inevitável com muito do que se produz hoje. Não se trata de saudosismo barato nem de implicância geracional. É constatação estética. Vivemos um tempo em que a forma muitas vezes atropela o conteúdo, em que o impacto substitui a elaboração, em que a repetição toma o lugar da invenção.
Carecemos de letras que contem histórias, que criem imagens, que provoquem sentimento real. Carecemos de autores que entendam que a música pode ser também literatura, e das mais potentes, porque é compartilhada, cantada, multiplicada.
Serginho Meriti nos lembra que a canção ainda pode ser abrigo, espelho, abraço. Que o verso pode dançar e a poesia não precisa ficar confinada em livros para existir com grandeza.
Resta torcer (e muito) para que a meninada que chega descubra esse caminho mais exigente e mais belo: o de transmutar palavras em emoção, linguagem em imagem, som em permanência.
Porque as modas passam, as batidas mudam, mas certas frases, quando nascem com alma, seguem sambando dentro da gente pela vida inteira.
Marcos Linhares é jornalista, escritor, professor e biógrafo. Atua há mais de duas décadas na promoção da leitura, políticas do livro e formação de autores. Foi presidente do Sindicato dos Escritores do DF e já coordenou a Feira do Livro de Brasília, projetos literários no DF e iniciativas educativas. É autor premiado nos Estados Unidos. Criou prêmios, programas e ações voltadas ao direito autoral, ao livro e à democratização da literatura.
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