A minha editora me perguntou o que eu achava do ensino de hoje em dia. Achei a pergunta capciosa, e aguardei mais elementos para responder. Ela continou me perguntando sobre como era estudar várias disciplinas, ter muitos professores, mudar de sala várias vezes… E eu respondi com outra pergunta. Perguntei para qual faixa etária seria aquela indagação, afinal, nas séries iniciais só há um professor regente de classe e quando muito, um professor de educação física ou recreação e jogos, pelo menos nas escolas públicas. Para minha surpresa, a pergunta surgiu após ter ouvido uma conversa entre duas crianças em um curto passeio de elevador do 1º ao 7º andar.
A conversa não foi ouvida de soslaio ou atrás de nenhuma porta. Duas crianças, uma de seis e outra de 12 anos, conversavam sobre o início do ano e como estava tudo difícil e corrido. O detalhe da conversa que chamou a sua atenção foi ouvir que tudo estava difícil e corrido. Mas, alto lá! Estamos em fevereiro e era pra estar tudo calmíssimo. Até por que nem chegamos ao carnaval de 2026.
A conversa durou segundos, no entanto, retumbou na mente de uma jovem mãe por uma noite inteira. Por que crianças no início do ano letivo afirmavam estar tudo corrido e difícil?
De certo que poderia ser um exagero, afinal, crianças podem supervalorizar as coisas, o que é bem legal e louvável para uma imaginação fértil e sagaz que a idade preconiza. Contudo, uma parte da conversa que ocorreu no elevador falava sobre a criança ter 24 matérias das mais diferentes e até interessantes como filosofia, literatura e tantas outras que ela nem se lembrava.
Relembrando Sherlock, não pode ser elementar uma criança estudar para se tornar um semideus ou algo parecido. É intrigante imaginar que em uma semana de provas, por exemplo, essa criança que confidenciou a outra ter 24 matérias, poderá ter mais de 4 provas diferentes por dia devido a quantidade de disciplinas fragmentadas que lhe são ofertadas semanalmente em sua escola de irons mans, ou melhor, super estudantes.
O conhecimento precisa de tempo para ser processado, a meu ver. Todavia, não é o que parece na escola dessa criança que em pleno fevereiro se sente literalmente, exausta.
Segundo Dewey, o aprendizado ocorre através de um processo ativo e orgânico, não pela transmissão passiva de informações. Para ele, a educação é uma reconstrução contínua de experiências que vai exigir tempo para que o aluno passe por um período de investigação, reflexão, até chegar a fase de consolidação da nova compreensão. Mas como consolidar qualquer coisa quando se tem no currículo 24 disciplinas compartimentadas para crianças? (Me desculpem, caros leitores, escrevi a frase anterior aos gritos)
É preciso parar, respirar e repensar. Reduzir a velocidade, simplificar o currículo e devolver às crianças o direito de aprender com calma, curiosidade e alegria. Do contrário, estaremos jogando fora a infância, a criatividade e o futuro. É hora de mudar ou melhor, parar.




