Feira do livro continua funcionando. Mesa com autor, sessão de autógrafos e debate mediado também. Esses formatos não estão em crise por si mesmos; o que entrou em desgaste foi a ideia de que eles dão conta, sozinhos, de todos os modos possíveis de encontro entre livro e leitor. O olhar experimental nasce exatamente aí, não como negação da tradição, mas como tentativa de abrir outros caminhos de aproximação, especialmente para públicos que não se reconhecem mais no ritual clássico.
Esse movimento não é moda nem improviso recente. Vem sendo testado há pelo menos duas décadas em diferentes países, quase sempre fora dos grandes palcos, em formatos menores, repetidos, ajustados, abandonados e retomados conforme a resposta do público. O que eles têm em comum é a recusa do espetáculo vazio e a aposta na experiência direta de leitura, escuta e convivência.
Encontro de leitura silenciosa
Um dos modelos mais consolidados nesse sentido é o encontro de leitura silenciosa em espaços de convivência. O Silent Book Club surgiu nos Estados Unidos em 2012 e se espalhou por dezenas de países, com encontros regulares em bares, bibliotecas, parques e centros culturais. Não há leitura obrigatória nem pauta fechada; as pessoas leem juntas, em silêncio, e depois conversam se quiserem. No Brasil, esse formato já foi testado de forma contínua em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, quase sempre organizado por leitores e mediadores independentes, sem vínculo institucional rígido.
Como fazer: escolha um espaço confortável que sustente silêncio real, defina um tempo claro de leitura e cumpra, evite apresentações longas e intervenções desnecessárias, deixe a conversa posterior acontecer apenas para quem quiser ficar, mantenha a estrutura simples para favorecer regularidade e não um evento isolado.
Reading parties
Em outra linha, surgiram as reading parties, encontros que misturam leitura coletiva, ambiente confortável, música discreta e socialização posterior. Esse modelo ganhou força principalmente em cidades como Nova York, Londres e Berlim e chegou ao Brasil de maneira mais tímida, aparecendo em ações pontuais ligadas a livrarias independentes e coletivos literários em São Paulo e Porto Alegre. Quando funciona, não é porque transforma leitura em festa, mas porque devolve ao ato de ler uma dimensão social sem tirá-lo do centro.
Como fazer: preserve a leitura como eixo do encontro, cuide da luz, do som e das cadeiras para que o corpo não atrapalhe o texto, evite conduções e falas excessivas, permita que a socialização aconteça depois da leitura e no ritmo das pessoas.
Literatura em movimento
Há também experiências que apostam na literatura em movimento. Caminhadas literárias e percursos urbanos comentados por escritores, leitores ou moradores do território combinam leitura de textos curtos com escuta da cidade. Esse formato aparece com frequência em festivais europeus e latino-americanos e já foi testado no Brasil em programações ligadas a festas literárias de médio porte, como ações paralelas da FLIP, da FLUP no Rio de Janeiro e de eventos locais em Recife e Belo Horizonte. Quando se sustentam no tempo, deixam de ser atração turística e passam a funcionar como leitura coletiva do espaço urbano.
Como fazer: desenhe um percurso curto e possível, selecione textos breves para pontos estratégicos, reduza explicações ao mínimo, privilegie observação e escuta do território, convide pessoas que conheçam o lugar para caminhar junto e não apenas especialistas.
Biblioteca Humana
Outro modelo com histórico mais longo é a Biblioteca Humana, criada na Dinamarca no início dos anos 2000 e replicada em dezenas de países. No Brasil, já houve edições organizadas por bibliotecas públicas, universidades e coletivos culturais em cidades como São Paulo, Curitiba e Brasília. A lógica é simples e potente: pessoas se oferecem como livros vivos para conversas estruturadas, com tempo, escuta e regras claras. Quando bem conduzida, essa experiência se conecta naturalmente com a literatura, porque cria pontes entre narrativas de vida e textos escritos.
Como fazer: defina temas com responsabilidade, estabeleça regras claras de tempo e respeito, prepare previamente quem vai se oferecer como livro vivo, mantenha a mediação discreta para não interferir na conversa, concentre o valor do encontro na escuta organizada.
Slams e saraus de rua
No campo da poesia, os slams e saraus de rua talvez sejam a experiência experimental mais sólida e contínua no país. Diferentemente de ações pontuais, eles criaram método, público e permanência. Em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador e Brasília, esses encontros acontecem há anos, ocupando praças, centros culturais e espaços periféricos. Não são eventos decorativos; são territórios de linguagem, disputa simbólica e formação de leitores e escritores, muitas vezes à margem do circuito editorial tradicional.
Como fazer: respeite o formato e suas regras próprias, evite domesticar a dinâmica ou institucionalizar o encontro, aproxime o livro com bancas simples, zines do próprio evento ou publicações rápidas, sem discursos ou tentativas de enquadramento.
Festivais com processo formativo
Há ainda um modelo que vem ganhando força por juntar evento e processo formativo. Festivais que não começam no palco, mas no território, com oficinas, encontros, produção de textos e publicação ao final. A FLUP é um exemplo conhecido, mas não o único; esse tipo de desenho tem aparecido também em eventos menores, organizados por coletivos e instituições locais, com foco em continuidade e não apenas visibilidade.
Como fazer: pense em ciclo e não em data única, organize encontros sucessivos que gerem produção ao longo do tempo, garanta um produto público ao final, trate a publicação como parte do processo e use o evento final como celebração.
Zines e micropublicações
Por fim, a cena de zines e micropublicações segue como um dos laboratórios mais ativos de experimentação literária. Feiras pequenas, encontros rápidos, impressão caseira e circulação direta acontecem no Brasil há décadas e nunca deixaram de acontecer, especialmente em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Porto Alegre. Não é novidade, mas segue sendo um espaço de invenção constante.
Como fazer: simplifique tudo, curadoria enxuta, mesas acessíveis, regras claras, pouco tempo de montagem e desmontagem, evite burocracia, preserve a troca direta e a urgência que fazem o zine existir.
O que esses modelos mostram não é um caminho único, mas uma mudança de postura: menos palco, mais chão; menos cerimônia, mais encontro; menos discurso sobre leitura, mais leitura acontecendo de fato. Nada disso substitui a feira tradicional. Lembre-se: a feira é casa, o laboratório é rua. Um não elimina o outro.
Tudo com mais atenção às pessoas e aos livros como experiência viva.
Marcos Linhares é jornalista, escritor, professor e biógrafo. Atua há mais de duas décadas na promoção da leitura, políticas do livro e formação de autores. Foi presidente do Sindicato dos Escritores do DF e já coordenou a Feira do Livro de Brasília, projetos literários no DF e iniciativas educativas. É autor premiado nos Estados Unidos. Criou prêmios, programas e ações voltadas ao direito autoral, ao livro e à democratização da literatura.
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