Você não é “todo mundo” e é por isso que está lendo esta crônica de um nobre escritor. Se fosse, estaria agora em Caraíva, Bahia, gastando R$440 numa porção mixuruca de peixe, salada, vinagrete e macaxeira frita, mau suficiente para um, vendida para dois. Estaria postando stories a manhã inteira com um único drink de R$65 que o fez questionar seu consumo de álcool.
Estar “arrasando” em uma praia chique já teria provocado duas promessas de Ano Novo: emagrecer e parar de beber. Mas lembre-se: você não é todo mundo, e isso, no verão, nem é tão legal. Afinal, quem não quer um pouco da vida da maioria? Corpo bronzeado, looks de verão, óculos escuros e aquela porção de frango a passarinho com cerveja ao som do mar.
Acorde do sonho. A realidade exige um empréstimo num banco virtual que não pergunte demais sobre suas dívidas. A única foto que você vai tirar será segurando a identidade, desesperado por qualquer quantia que o salve das contas de janeiro e garanta, quem sabe, o carnaval.
De repente, a sustentabilidade invade sua mente. Guarda-roupa cheio, estante abarrotada de livros, calçados demais para dois pés, até móveis em excesso. Uma nova versão, elegante e tendência nos castelos europeus, surge: o minimalista. Mas, no fundo, essa é a postura da sua nova vocação, refletida no espelho com essência de SEBRAE: Liso. Sem grana. Quebrado. Pé rapado. POBRE.
A solução é atualizar os stories, colocando tudo à venda. Você diz que está “desapegando”, mas sendo sincero, está vendendo o almoço para comer miojo na janta. E para ser muito honesto, essa faxina de início de ano é o que “todo mundo” devia fazer. Eu mesmo tenho ferramenta que nunca usei, mais de vinte livros lacrados e um terno parado há cinco anos, desde o último casamento. Aliás, casamento está saindo de moda; morar junto para dividir as contas é a tendência, por isso o número de casas desocupando é maior que o de aluguéis no início do ano.
Sem rodeios, todos sabem que você está sem um centavo: raspando pasta de dente com alicate, remendando Havaiana com prego (não importa se é pé direito ou esquerdo), e comendo cuscuz com ovo — nada a ver com dieta fitness. O jeito é andar mais a pé e de bicicleta, “aproveitando a natureza e o clima” em vez de enriquecer as empresas de carro por aplicativo. Pedir comida, só na casa dos parentes, com aquele tom de saudade infantil, esperando a mesa farta com pães, bolo e café. Hoje, é a quinta visita consecutiva à tia que você nem tem certeza se é sanguínea, mas o importante é fechar o mês sem recorrer ao agiota.
Paz!
Thiago Maroca é escritor, cineasta, chefe escoteiro e pai do Théo. Dessa vez não ganhou na mega e precisa de um milagre financeiro.
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