O QUE O PSICANALISTA REALMENTE ESPERA DE VOCÊ NA PRIMEIRA SESSÃO? (Spoiler: Não é o que você imagina)

Vamos Desmistificar: O que Perguntar? Como Funciona? É Para Mim?

Existe um momento específico que quase todo paciente relata depois de algum tempo de análise: o momento em que estava na sala de espera (física ou virtual) aguardando a primeira sessão. O coração acelera. A boca seca. A mente é invadida por pensamentos de fuga: “Será que eu preciso mesmo disso?”, “E se eu não tiver nada para dizer?”, “E se ele me julgar?”. Muitos desistem.

Esse medo é totalmente compreensível. A psicanálise, mais do que qualquer outra prática clínica, é cercada de mitos, caricaturas de cinema e um certo ar de mistério. Imaginamos um senhor de barba branca (no meu caso um pouco) em silêncio absoluto, anotando nossos segredos enquanto deitamos em um divã e choramos.

Como dizia Freud em seu texto clássico sobre o início do tratamento:

“Observará que durante o seu relato lhe ocorrerão pensamentos diversos, que você gostaria de rejeitar, devido a certas objeções críticas. Estar tentado a dizer a si mesmo que isso ou aquilo não vem ao caso, ou é totalmente irrelevante, ou é absurdo, e então não é preciso comunicá-lo. Não ceda jamais a essa crítica, e comunique-o apesar disso, ou melhor, precisamente por isso, porque você sente uma aversão àquilo. A razão dessa regra, a única que deve seguir, na verdade você perceberá e compreenderá depois. Portanto, diga tudo o que lhe vier à mente.”

Como psicanalista e educador, meu objetivo hoje é abrir a “caixa preta” do consultório. Quero explicar exatamente o que acontece nesse primeiro encontro, para que o medo do desconhecido não seja a barreira entre você e a sua saúde mental.

A primeira coisa a saber é que a primeira sessão não é um julgamento. Você não está lá para “provar” que está doente, nem para ser avaliado moralmente. Nós chamamos esse início de “Entrevistas Preliminares”. O início da análise não acontece em um único dia. É um período de tempo (que pode durar algumas sessões) onde nós (analista e paciente) estamos nos conhecendo.

Eu estarei avaliando como posso ajudar você, e você estará avaliando se sente confiança e conforto (o que na psicanálise chamamos de transferência) para trabalhar comigo. É um processo de via dupla. O início de um relacionamento.

Muitos pacientes preparam “roteiros”, trazem listas de sintomas ou tentam contar a vida cronologicamente do nascimento até ontem. Você pode fazer isso se quiser, mas não precisa.

A regra de ouro da psicanálise é a Associação Livre. O convite que farei a você é simples e, ao mesmo tempo, revolucionário: “Fale o que vier à cabeça”. Assim como nos indicou Freud logo no início deste artigo.

Pode ser sobre o trânsito que estava ruim. Pode ser sobre uma briga com seu chefe. Pode ser sobre um sonho estranho que teve na noite anterior. Pode ser sobre a vergonha de estar ali. Ou sobre sua dificuldade com o relacionamento.

Diferente de uma conversa social, onde “editamos” nossa fala para parecermos coerentes ou educados, na análise o “aleatório” importa. Muitas vezes, é naquilo que parece inútil ou desconexo que o inconsciente se manifesta. O meu trabalho, como especialista em escuta é identificar os padrões, as repetições e os afetos escondidos nessas falas aparentemente banais.

Portanto, não se preocupe em ser interessante. Apenas seja presente. Seja você!!

As primeiras sessões geralmente ocorrem “face a face”. O contato visual é importante para estabelecer o vínculo de confiança. O uso do divã (deitar-se e não ver o analista) é uma ferramenta técnica poderosa que introduzimos em um segundo momento, quando o paciente já se sente seguro o suficiente para mergulhar em suas próprias associações sem precisar buscar a aprovação no rosto do analista.

Pessoalmente, por exemplo, uso uma rede de descanso, pois acho mais próximo da brasilidade. Mas podemos também se sentar em uma esteira no chão e prosear. Se o atendimento for online, a lógica é a mesma. O “divã” é um estado de espírito de entrega à própria fala, que construímos juntos.

Outro grande medo: “Vou falar e ele vai ficar mudo?”. Na psicanálise, com a qual trabalho, o analista não é uma estátua. Especialmente nas primeiras sessões, o diálogo é mais livre. Eu posso fazer perguntas, esclarecimentos sobre sua história, ajudarei a organizar a narrativa do seu sofrimento. O silêncio, quando ocorre, não é de desinteresse. É um espaço de ressonância. Às vezes, calamos para que você possa ouvir o eco da sua própria voz e perceber: “Nossa, eu realmente disse isso?”. Mas, no início, o acolhimento prevalece.

A primeira sessão também serve para desmistificar a parte prática. Falaremos sobre frequência (semanal? quinzenal?), sobre valores e sobre as regras de cancelamento.

Isso não é “frieza comercial”. Pelo contrário, ter regras claras (o chamado setting) é fundamental para que você se sinta seguro. O espaço da análise precisa ser previsível e constante para que o seu mundo interno possa ser caótico e livre.

Geralmente, o sentimento ao final da primeira sessão não é de medo, mas de um profundo alívio. A sensação de “finalmente alguém me escutou sem tentar me dar conselhos ou me julgar” é reparadora. Você não sairá curado na primeira hora. Mas sairá com algo que talvez não tenha há muito tempo: esperança e um lugar. Um lugar onde sua dor tem nome, onde sua história tem valor e onde você não precisa carregar o mundo sozinho.

Se você está adiando esse momento, saiba que a coragem necessária é apenas para os primeiros 5 minutos. Depois disso, o processo flui. Lembre-se: é sempre tempo de vencer o medo e desatar seus nós!

Prof. Dr. William Figueiredo é filósofo, psicanalista e educador físico. Pós-doutor em Psicologia pela Universidade Federal de Uberlândia e doutor em Ciências da Religião. Especialista em Psicopatologia e Bem-Estar Social pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa, atua com atendimento clínico online, supervisão e assessoria em desenvolvimento humano e educacional. Atua como professor colaborador na Pós-graduação da Universidade Metodista de São Paulo. Ministra palestras, formações e workshops voltados à escuta qualificada, saúde mental e processos educativos com ênfase em: Psicanálise, Neuroeducação, Aprendizagem Tangencial, IA e Educação Socioemocional.
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A jornada analítica começa com uma primeira escuta. Se você está pronto para ir além dos sintomas e entender as raízes do seu sofrimento, agende uma conversa preliminar de acolhimento (online ou presencial).
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