A forma como caminhamos e como escrevemos as nossas vidas é desenhada por trajetos que atravessam lugares, pessoas e momentos. Cada deslocamento, por menor que seja, cria uma narrativa silenciosa que molda a forma como percebemos o mundo.
É curioso perceber que, apesar de depender diariamente da circulação urbana, muitas vezes negligenciamos a estrutura que nos permite viver a cidade: suas calçadas, seus ônibus, seus acessos, suas conexões. E, mais curioso ainda, é notar que essa negligência não ocorre apenas no campo físico, mas também na forma como nos comunicamos sobre esses desafios.
Mobilidade urbana e comunicação têm muito mais em comum do que costumamos imaginar. Ambas tratam de conexões: entre pessoas, entre pontos, entre ideias, entre espaços. Ambas lidam com fluxos, interrupções, ruídos, bloqueios e acessos. E ambas revelam, de forma muito clara, o comportamento de uma sociedade.
Se a mobilidade mostra como nos movemos, a comunicação mostra por que nos movemos. Quando as duas falham, o tecido social se fragiliza.
Uma cidade que não flui não permite que as pessoas se encontrem, e uma comunicação que não alcança não permite que elas se entendam. O resultado é um conjunto de linhas desconectadas — ruas que não levam a lugar nenhum, políticas públicas que não dialogam com a população, cidades que não comunicam suas próprias necessidades. Assim, vamos nos acostumando com o caos urbano como se fosse inevitável. Como dizia Sartre, “o pior mal é aquele ao qual nos acostumamos.”
É assim que naturalizamos calçadas inexistentes, paradas de ônibus sem proteção, avenidas que priorizam carros em vez de pessoas, bairros que dificultam mais do que acolhem.
Naturalizamos a pressa, a insegurança, as barreiras invisíveis entre nós e o outro.
E, ao mesmo tempo, naturalizamos a falta de comunicação sobre tudo isso.
Como posso entender meu vizinho se não consigo sequer caminhar pelo meu bairro sem medo?
Como posso participar da vida da minha comunidade se não existe circulação segura, transporte acessível ou informação clara sobre a cidade onde vivo?
A mobilidade influencia diretamente nossa forma de criar laços sociais e a comunicação é a ponte que nos permite reconhecer esses laços.
Lembro das histórias que meu avô, historiador, contava quando eu era criança. Ele sempre explicava como certos acontecimentos, deslocamentos geográficos e decisões urbanas moldaram comportamentos coletivos ao longo das décadas.
Eram fatos, memórias e contextos que mostravam como a sociedade se transformava à medida que mudavam suas rotas, suas travessias, suas relações com os espaços.
Com o tempo, percebi que a mobilidade nunca foi apenas sobre ir de um ponto A a um ponto B. Ela sempre foi sobre como as pessoas circulam, com quem circulam, o que encontram no caminho e como isso determina percepções, convivências e até identidades. O espaço urbano comunica. Ele educa, molda, acolhe ou afasta.
E se o espaço comunica, então devemos admitir que grande parte das cidades comunica mal.
Uma cidade que prioriza muros altos comunica medo.
Uma rua sem calçada comunica descaso.
Um transporte público ineficiente comunica desigualdade.
Um bairro sem áreas de convivência comunica isolamento.
Da mesma forma, quando a cidade comunica bem, ela transmite outra mensagem: pertencimento.
Calçadas largas, ciclovias seguras, acessibilidade, transporte frequente e informações claras criam uma sensação de cuidado coletivo. Esses elementos não são apenas estruturas físicas são ferramentas de comunicação urbana.
No fim, mobilidade urbana é sobre acesso: a serviços, oportunidades, convivências, direitos básicos.
E comunicação é sobre dar significado a esse acesso: explicar, informar, conectar, dar voz, dar sentido.
Precisamos repensar não apenas os trajetos que percorremos, mas também as narrativas que contamos sobre eles. Precisamos comunicar melhor o que queremos, como vivemos e o que precisamos transformar.
Porque, no fundo, mover-se e comunicar-se são atos que constroem a cidade e constroem a nós mesmos. Uma cidade que se move bem comunica bem, e uma sociedade que comunica bem se move melhor.
Pensar com Arte é Pensar diferente,
Aimée é uma planejadora urbana com mais de 15 anos de experiência em Marketing, consultora de pós-graduação em NeuroMarketing, Artista Visual internacional e CEO da Tkart, uma empresa internacional de marketing.
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