Cansado de performar

Seu Uilson, gente fina, cinquentão, tem um comércio simples, vende coisas de casa, um pouco de ração para cachorro e papelaria. O ambiente é familiar, sempre tem duas cadeiras na porta do estabelecimento a disposição para quem quiser tirar um cochilo ou um dedinho de prosa. Nunca houve muitas dificuldades, ele conhecia o bairro e fazia fiado a quem merecia, mas todo mundo mantinha em ordem as dívidas com seu Uilson, não se podia vacilar com alguém tão gente fina.
Mas aí veio a expansão imobiliária, a internet, a TV a cabo, o açaí, o smartphone, a Uber, o iFood, o Nubank, a assinatura do gov.br, a pandemia de COVID, o PIX, a olimpíada de 2020 em 2021 e ele não estava mais conseguindo manter as despesas em ordem.
Mas para salvar o negócio, tem sempre que estar acompanhado a moda, as trends, o hipe, tocar o hit, dançar Kpop, usar os filtros da rede social, quando, na verdade, um pouco mais de clientes ou vendas seriam suficientes para as contas fecharem no azul no final do mês. Mas o nosso herói não conseguia bater a meta, então deixou ela aberta para dobrar. Fez um curso de marketing on-line e testou tudo que pode, mas não atraia novos clientes.
“Vou fechar!”
O Primeiro neto, moleque antenado, jogador de free fire e suas variáveis, resolveu ajudar o avô na empreitada. Preguiçoso e sabido, explicou ao avô que o esquema era entregar as coisas na casa das pessoas. Tipo delivery, mas comprando no site, não precisava ir na loja.
“Mas a loja é que me mantém vivo”
Na outra sugestão, ele contou para o avô sobre ser um ponto de entrega da shopee, o velho custou a entender mas aceitou. A grana entrou mas levou a paz do local, todo dia tinha caixas chegando e saindo. Seu Uilson, de saco cheio, não abriu a loja, abriu todos os pacotes que tinham e levou para vender na feira do rolo com intuito de fazer uma grana e dar um tempo com aquele pessoal que nem entrava na loja e nem sentava para conversar. A desculpa seria um atestado de demência que ele conseguiu com um rapaz que estava recebendo pacotes com sementes misteriosas.

Thiago Maroca ama boa conversa.
Manda um oi: @thiagomaroca / thiagomaroca@gmail.com

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