Aos 24 anos, quase 25, o tatuador Ricardo Teixeira, de Santo Antônio do Descoberto, possui uma trajetória que reflete a capacidade de transformar reveses em oportunidades. Em entrevista em seu estúdio, o artista revelou como a influência artística da família e a perda de uma bolsa de estudos na pandemia o guiaram para o sucesso no exigente mercado da tatuagem, onde já coleciona prêmios.
O talento para o desenho acompanha Ricardo desde a infância, um dom herdado de seu pai, um artista que, na juventude, fazia pintura manual em caminhões. “Desde pequeno eu sempre tive esse lado artístico”, conta.
O plano inicial era seguir a carreira em Design Gráfico. Com uma boa nota no ENEM, Ricardo chegou a conquistar uma bolsa de estudos para a faculdade. No entanto, o sonho foi interrompido: por questões burocráticas relacionadas à documentação de seu pai, que era autônomo, ele perdeu a bolsa.
O revés coincidiu com o início da pandemia de COVID-19, um período onde as chances de conseguir emprego eram praticamente nulas. Foi nesse contexto que o auxílio emergencial se tornou o capital inicial para uma nova carreira.
“Vou pegar e comprar material de tatuagem, é o que me resta. Para quem desenha hoje em dia, a única coisa que resta é tatuador, porque o resto é muito desvalorizado e é muito difícil conseguir ter uma vida financeira boa, vivendo de arte.”
Ricardo avalia que a impossibilidade de seguir no Design acabou sendo um livramento, citando a dificuldade do mercado e a popularização de ferramentas simplificadas, como o Canva, que precarizaram a profissão.
O Estilo: A Precisão do Fine Line


Ricardo se especializou em fine line e minimalismo, estilos que exigem uma precisão extrema. Embora sejam visualmente mais simples, o artista destaca a dificuldade técnica:
“A minimalista e fine line acaba sendo mais difícil, porque se você errou um traço, já era, não tem conserto. No minimalismo e no fine line é tipo, errou, pronto. Estragou a tatuagem.”
Sua ascensão foi rápida. Logo no início da carreira, ele ganhou dois prêmios em um concurso com uma tatuagem de grande porte, um feito que hoje é celebrado em um mural em seu estúdio.
Generosidade Artística e Biossegurança
Em seu processo criativo, Antônio adota uma postura generosa, priorizando a vontade do cliente para que a tatuagem mantenha um significado pessoal, sem se tornar uma mera cópia do estilo do tatuador. “Eu prezo muito pelo que o cliente quer. Sem eu mudar tanto, porque senão acaba virando uma coisa minha e não para o cliente,” afirma.
Sobre segurança, ele é enfático quanto à biossegurança (esterilização de materiais, agulhas e tintas descartáveis) e os cuidados pós-tatuagem. Ele alerta sobre a importância de evitar comidas gordurosas e, principalmente, piscinas durante a cicatrização, definindo a água de piscina como “água exposta” e propensa à contaminação.
Antônio também destaca que o talento e o material de qualidade são cruciais, mais até do que o preço: “O tatuador mais caro e o mais barato está tendo, hoje em dia, o mesmo acesso a bons materiais. O que faz a diferença é o material e o talento.”
Com a agenda concorrida, o tatuador atribui o crescimento de sua clientela ao “boca a boca,” indicando que o reconhecimento pessoal e a qualidade visível superam a divulgação digital.
Para quem deseja iniciar na tatuagem, sua principal dica é não desistir e focar no desenvolvimento técnico, apesar do custo elevado dos materiais. Mas o pilar de sua jornada é a autocrítica:
“Eu me critico bastante. Para mim, quase tudo que eu faço nada está bom. Porque eu acho que quando você consegue começar a se ver assim, falar assim, não, eu fiz isso bem… Eu acho que você fica naquela zona de conforto.”
Ricardo é um exemplo de que a exigência consigo mesmo e o foco na excelência são os verdadeiros traços que definem o sucesso duradouro.




