Criança maluca

Não tem outra definição. Existe uma guerra silenciosa entre os pais e os professores. O tal do dia maluco na escola. Uma vez ao ano, geralmente perto do dia das crianças, bem pertinho do dia dos professores, a escola determina uma semana de teste cardíaco para pais e mães desafiarem o limite humano da criatividade. Os principais causadores desse caos são os professores. Usam o evento para se vingarem daqueles que falam que a vida do pedagogo é apenas fazer mural e cortar E.V.A., que acham que a jornada da professora se limita a sala de aula e esquecem que elas levam provas para corrigirem em casa, que preparam dinâmicas  e outras atividades para que o aprendizado seja reforçado. Nesse dia, a regra é caprichar no acessório. A escola promove a gincana e o céu é o limite, junto com o cartão de crédito dos pais. Você acredita que eu rodei a cidade procurando coisa para fazer uma teia de aranha no cabelo do menino? Deu tudo certo, ele adorou. A professora não vai poder citar meu nome na lista dos que não participaram. Vrá (batendo o leque por aqui).

Dois dias depois, tem que levar o máximo de parentes na entrada da escola e fazer uma selfie no tal mural a base de crepom, cartolina, glitter e claro, o E.V.A., aproveitei para cumprimentar meus cunhados, parecem ser pessoas de bem, combinamos de nos vermos mais vezes antes do natal.

No último dia da gincana, pediram uma mochila maluca, como a criança não precisa ficar quieta igual o cabelo, a criatividade vai a mil. É por isso que sempre ganhamos os festivais de criatividade em Cannes, na França. O brasileiro tem sagacidade no sangue, a gente dá um jeitinho para tudo e as crianças crescem vendo os adultos se virando e aprendem também. No caso, as crianças de pais trabalhadores porque os filtros dos ricos vão continuar pagando menos impostos como sempre, com alguns trouxas comemorando. Sei que a semana é da criança, mas, uma militância de leve ajuda a manter o sangue quente.

Tem o dia do teatro, do cinema, da balada, da festa das cores, da noite do pijama, da fantasia, do brega, do chique, das profissões, do caipira, de ir de chinelo, do material escolar dentro do balde. Dizem que quando o filho chega no ensino fundamental, pedem para levarem carros antigos e objetos de colecionador, tenho um conhecido que perdeu algumas moedas valiosíssimas. 

Não é de esperar que esse mês termine com o Halloween, uma festa em que as crianças se vestem de monstros e pedem doces ou travessuras, coisa típica de americano. O Trump com certeza já saia de terno e topete e achavam que ele estava fantasiado de Jack estripador, se fosse no Brasil, seria o bandido da luz vermelha ou Pedro Dom.

Depois de tudo isso, é direito de todos os professores desse Brasil terem férias merecidas. Em algumas cidades, instituíram a semana do saco cheio, onde os professores tiram a roupa de banho do guarda-roupa e caem no mar, no rio, na cachoeira ou onde der, só não pode ficar em casa por que dá azar.

Feliz dia das crianças, dos professores e de todos os profissionais da educação. Em breve, vai ter o dia do adulto maluco, com boletos grudados no cabelo e uma mochila em forma de Rivotril.

Fui.

Thiago Maroca é formado em Pedagogia, mas nunca lecionou para o ensino fundamental, por isso acredita que professor deve ganhar mais e ter desconto em bares, baladas e hoteis. 

Manda um oi:thiagomaroca@gmail.com

*Colaboração de diariodoentorno.com.br

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