
O sonho quase centenário de um túnel submerso ligando as cidades de Santos e Guarujá vai começar a virar realidade em 5 de setembro, quando serão abertos os envelopes com as propostas dos grupos e consórcios que vão participar do leilão de construção, operação e manutenção da obra, com custo estimado de R$ 6,8 bilhões.
Pelas projeções, quando a obra for entregue, em 2029, a travessia hoje feita pelas balsas, que pode demorar mais de uma hora – tanto pela demanda como pelo tráfego de navios de carga – será realizada em menos de dois minutos.
O InfoMoney traçou um panorama com o histórico do projeto, os detalhes da obra e as condições do leilão. Lei abaixo:
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Sonho de quase 100 anos

A primeira ideia de um túnel ligando Santos e Guarujá (até 1926 um distrito) surgiu em 1927, em desenhos do arquiteto Enéas Marini, inspirado pela obra iniciada naquele ano em Nova York, sob o Rio Hudson, que se tornaria o hoje clássico Túnel Holland, que conecta a ilha de Manhattan com Jersey City. Segundo o blog Memória Santista, o projeto era adaptável ao tráfego de qualquer veículo, fossem eles bondes, ônibus, automóveis e até carroças de tração animal. O mesmo arquiteto fez um projeto similar para ligar o Rio de Janeiro a Niterói, passando por baixo da Baía da Guanabara.
Anos 1940
Foi só nos anos 1940 que a ideia original foi atualizada: na elaboração do Plano Regional de Santos, que tinha por objetivo modernizar o porto e desenvolver a região, o engenheiro Francisco Prestes Maia incluiu obras de mobilidade que tinham o túnel como opção. Em 1948, surgiu uma proposta para se construir uma ponte levadiça, ideia que também acabou engavetada.
Planos mais recentes
A obra do túnel voltou a ser cogitada de novo na virada dos anos 1970 para os anos 1980, mas os tempos de dívida externa nas alturas e de escassez de crédito internacional deixaram mais uma vez os projetos só no papel. Posteriormente, houve promessas de retomada de planos pelo governo do Estado de São Paulo, tanto na gestão de José Serra como nas administrações de Geraldo Alckmin, mas a execução continuava adiada.
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Agora vai?

A parceria entre os governos federal e estadual, com o projeto incluído no Novo PAC, tirou a obra do campos das promessas e discussões para uma estratégia definida. Além da destinação dos recursos e negociações para as devidas licenças ambientais, em abril o ministro de Portos e Aeroportos, Silvio Costa Filho, e o governador Tarcísio de Freitas, fizeram reuniões na Europa para apresentar o projeto a investidores estrangeiros. Foram contatados grupos como o português Mota-Engil e os holandeses Ballast Nedam e TEC Tunnel, com experiência nesse tipo de construção. Também foi feita uma visita ao túnel de Fehmarnbelt, que terá 18,1 quilômetros de extensão e que está em construção sob o Mar Báltico. Posteriormente, em maio, o ministro também apresentou o projeto para investidores chineses, durante a visita do presidente Lula ao país.
Como será a obra?

O primeiro túnel submerso do Brasil terá 1,5 km de extensão, dos quais 870 metros serão imersos em uma profundidade de 21 metros, com três faixas de rolamento por sentido, sendo uma exclusiva para o Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), além de acessos para pedestres e ciclistas. O trecho vai ligar as regiões de Outeirinhos e Macuco, em Santos, ao bairro Vicente de Carvalho, em Guarujá. O estudo de mobilidade do projeto concluiu que a localização mais adequada do túnel é no centro do canal, atendendo as necessidades logísticas da região.
A estrutura será composta por seis módulos de concreto pré-moldados que serão construídos em uma doca seca. Em seguida, os módulos serão “mergulhados” na água para o teste de vedação e impermeabilidade. Depois de prontas, as partes serão transportadas por flutuação até o local onde o túnel será instalado no fundo do leito oceânico. O empreendimento deve gerar 9 mil empregos diretos e indiretos.
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Como é feita a travessia hoje?
Atualmente, a travessia é feita por balsa ou por cerca de 40 km de rodovia. Mais de 21 mil veículos cruzam diariamente as duas margens utilizando barcos de pequeno porte (catraias) e as balsas, além de 7,7 mil ciclistas e 7,6 mil pedestres. A travessia por balsas é considerada a maior do mundo em número de veículos transportados, com uma média diária de 14 mil veículos e 28 mil pessoas. Só para comparação: quando o engenheiro Enéas Marini propôs o primeiro projeto do túnel, ele calculou que cerca de 268 mil pessoas haviam atravessado o estuário entre Santos e Itapema em todo o ano de 1926. Somente na última operação verão, entre dezembro de 2024 e março de 2025, o sistema de balsas transportou cerca de 5 milhões de veículos e pedestres.
Como será o leilão?
A concessionária – empresa, grupo ou consórcio nacional ou internacional – que vencer o certame será responsável pela construção, operação e manutenção do túnel, num contrato de 30 anos. O critério de julgamento é o de maior percentual de desconto sobre o valor da contraprestação pública máxima, considerando o valor anual de R$ 438,380 milhões, na data base de março de 2025. Após a republicação do edital, em junho, o modelo do leilão passou a permitir, em caso de empate, lances em viva-voz tanto sobre a contraprestação pública quanto sobre o aporte público, para estimular maior competição e busca por propostas mais vantajosas ao poder público. A entrega dos envelopes está marcada para 1º de setembro, às 10h, e a abertura dos lances ocorrerá no dia 5 de setembro, às 16h.
O valor da tarifa de pedágio base a ser praticado na operação será de R$ 6,15 por usuário, também com data base de março de 2025.
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(Fontes: Ministério dos Portos e Aeroportos, Agência SP, Governo do Estado de S. Paulo, Codesp, SEESP e blog Memória Santista)