De Anderson Silva a “Emergência 53”: William Nascimento celebra virada na carreira

Ator diz que protagonizar série sobre lutador mudou seu espaço no mercado e abriu portas para novos projetos

William Nascimento encontrou no silêncio um dos maiores desafios de seus 18 anos de carreira. No ar como o enfermeiro Átila em “Emergência 53”, do Globoplay, o ator interpreta um homem de poucas palavras, marcado por um passado no Exército e que encontra na fé uma das bases para enfrentar uma rotina em que vida e morte fazem parte do trabalho.

Átila foi cabo do Exército antes de integrar a Unidade 53. Foi durante a passagem pelas Forças Armadas que aprendeu enfermagem de guerra, mas também teve contato com situações traumáticas que continuam reverberando em sua vida. Esse passado ganha especial importância no quinto episódio da série, “O Monstro”: durante o atendimento a uma mulher espancada pelo marido, um militar, ele é obrigado a confrontar lembranças do período em que atuou como enfermeiro do Exército em uma missão na floresta.

Para William, construir um personagem tão contido exigiu justamente abandonar recursos nos quais um ator normalmente pode se apoiar.

“É um personagem bem diferente do que eu já fiz: um cara observador, direto, de poucas palavras, sempre pronto para fazer o que tem que ser feito. E é aí que está o desafio, porque personagem calado não te dá onde se apoiar. Não tem discurso, não tem explicação — o que sobra é o olhar e o corpo. Foi o trabalho em que mais precisei confiar no silêncio”, conta.

Há ainda uma identificação pessoal entre ator e personagem. Assim como William, Átila é evangélico. O ator fez questão de evitar que a religiosidade aparecesse apenas como uma característica superficial.

“Interpretar isso com respeito, sem caricatura, é uma responsabilidade que eu assumi com muito carinho — porque a fé de um personagem não pode ser um detalhe decorativo. Ela atravessa o jeito dele de olhar para o outro, principalmente num trabalho onde ele lida com vida e morte todos os dias. Poder trazer isso de dentro de mim para a cena está sendo uma das experiências mais bonitas da minha carreira.”

“Emergência 53” acompanha os profissionais de uma unidade móvel de urgência e, diferentemente das tradicionais séries médicas ambientadas majoritariamente dentro de hospitais, leva boa parte da ação para as ruas. Átila trabalha ao lado de profissionais como Irene (Yara de Novaes), Glória (Heloísa Jorge), Pedro (Emílio Dantas), Vanessa (Raquel Villar), Manuela (Valentina Herszage), Duda (Ana Hikari) e Vandam (Jaffar Bambirra).

A preparação para interpretar um enfermeiro também extrapolou a ficção. William passou por treinamento dentro de uma unidade do Samu, onde aprendeu procedimentos de primeiro atendimento e se familiarizou com a linguagem usada pelos profissionais de saúde.

O momento atual consolida uma virada que começou três anos atrás. Em 2023, William ganhou projeção ao protagonizar “Anderson Spider Silva”, produção sobre a trajetória de Anderson Silva. Para ele, existe claramente uma carreira antes e outra depois do papel.

“A série ‘Anderson Spider Silva’ é o divisor de águas da minha carreira. Foi meu primeiro protagonista depois de muitos anos trabalhando em papéis menores, testando, esperando a chance de sustentar uma história inteira. Quando ela veio, veio grande. O que mudou não foi só visibilidade, foi credibilidade. Antes eu precisava provar em cada teste que dava conta; depois da série, o mercado passou a me olhar como alguém que já tinha carregado um protagonista — e isso muda completamente o tipo de convite que chega”, diz.

Além de “Emergência 53”, William tem outros projetos no horizonte. Em 2027, será protagonista de “Na Linha de Fogo”, filme fruto da parceria entre Globo e Disney. Também estrela o longa “Corações Naufragados” e está no elenco da série “Delegacia de Homicídios”, do Globoplay.

A trajetória até os protagonistas atuais, no entanto, começou muito antes. Nascido em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, William começou a trabalhar como modelo aos 12 anos e, ainda jovem, conquistou uma bolsa para estudar teatro no Tablado. Aos 33 anos, atribui à mãe uma parcela fundamental do caminho que conseguiu construir.

“Sou um cara simples, de família humilde, e tenho muito orgulho do lugar de onde vim. Duque de Caxias me formou antes de qualquer curso. Se hoje eu faço projetos de grande alcance, é graças à minha mãe. Ela investiu tudo o que tinha e o que não tinha para que desse certo”, conta.

Fora das telas, outra experiência passou a determinar suas escolhas. Pai de Ayla, de 3 anos, William diz que a paternidade alterou principalmente sua relação com o tempo e com aquilo que pretende construir para o futuro: “Não quero ser um exemplo perfeito, quero ser um exemplo honesto. Que ela me veja trabalhando, errando, tentando de novo e não desistindo. Se ela crescer sabendo que é possível vir de onde a gente veio e viver do que se ama, já valeu”.

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