Em jantar com jornalistas, republicano sugeriu que pode concorrer as eleições; Constituição dos EUA permite máximo de 2 mandatos
O presidente dos EUA, Donald Trump (Partido Republicano), disse nesta 6ª feira (24.jul.2026) que planeja concorrer à Presidência novamente em 2028. A declaração foi dada durante jantar com jornalistas setoristas da Casa Branca –remarcado após um atirador tentar atingir o presidente no evento, organizado em abril.
Em seu discurso, o republicano colocou um boné com os dizeres “Trump 2028” e disse que concorreria a um “4º mandato” –o republicano fala repetidamente em fraude e diz ter vencido as eleições de 2020 contra Joe Biden (Partido Democrata).
“Ganhei 3 vezes e vou fazer isso de novo. Deve ser fácil. Estou ficando muito bom em concorrer à Presidência. Ganhei 3 vezes e me saí muito bem na 2ª vez, aliás. Eleição fraudada, mas não precisamos falar sobre isso“, afirmou Trump.
A Constituição dos EUA, no entanto, proíbe o exercício de mais de 2 mandatos, consecutivos ou não. A condição foi estabelecida na 22ª emenda.
SESSÃO DE PIADAS
O discurso de Trump durou pouco mais de uma hora e teve tom descontraído. O presidente disse que havia preparado um discurso mais contundente na edição cancelada do evento.
Segundo ele, a intenção era entregar uma crítica dura aos jornalistas setoristas. Ainda assim, não deixou de ironizar os presentes.
“Este lugar reúne, provavelmente, a maior concentração de pessoas com a chamada ‘Síndrome de Perturbação por Trump’ já vista ao mesmo tempo. Alguns de vocês tiveram sorte de o nosso último jantar ter sido interrompido, porque eu havia preparado algo especial. Estou falando sério. Eu tinha preparado um discurso pesado contra vocês”, declarou.
Este foi o 1º ano em que o presidente compareceu ao jantar promovido por jornalistas. Segundo ele, em seu 1º mandato, recusou-se a ir porque a mídia o tratou “muito mal”. No final do discurso, porém o republicano encerrou afirmando que “tem respeito” pela profissão dos jornalistas setoristas.
Em determinado momento, o presidente se limitou a dar declarações jocosas, mas que não arrancaram muitas risadas na platéia. Um dos constrangimentos foi quando o republicano insistiu em repetir uma piada de baixo calão.
“Outro dia, um senador que eu conhecia, um cara gente boa, recebeu uma mensagem da mulher, dizendo: ‘Quando você chegar em casa, quero que suba as escadas imediatamente e faça amor comigo’. E ele respondeu: ‘Não dá para fazer as duas coisas’. Sabe? Em outras palavras: não dá para subir as escadas e fazer amor. Alguém entendeu? Bom, eu achei isso muito bom. Na verdade, foi a única coisa boa naquele discurso estúpido e maldito que escreveram”, disse Trump.
IRÃ, Netanyahu E Mamdani
O republicano pouco recorreu aos temas que costuma falar, mas mencionou novamente não aceitará que o Irã produza uma arma nuclear.
“Eles adorariam fechar um acordo. Não acho que estejam prontos para isso. Não creio que seja o momento ainda, mas estou disposto a ouvir. Mas eles não podem ter uma arma nuclear”, afirmou.
Trump ironizou o senador Chuck Schumer (Partido Democrata) pelo posicionamento contra Israel e ironizou o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani (Partido Democrata), por falar que considerava prender o premiê israelense, Benjamin Netanyahu, caso ele visitasse a cidade.
“Vou enviar a ele [Schumer] uma linda roupa palestina amanhã para que ele possa receber o Bibi Netanyahu quando ele vier à cidade na semana que vem, junto com o prefeito –que, tenho certeza, adoraria conhecer o Bibi. Eles não estão tratando o Bibi muito bem”, disse.
CRÍTICAS A DEMOCRATAS
Na fala a jornalistas, o presidente também debochou de oponentes políticos. Criticou o governador da Califórnia, Gavin Newson, por não comparecer ao jantar e o criticou por falhar em conter incêndios no Estado. É uma tradição que possíveis presidenciáveis, mesmo de oposição, marquem presença no jantar de jornalistas da Casa Branca.
“Achei uma pena que Gavin Newsom não tenha vindo. Ele deveria estar aqui. Ouvi dizer que, recentemente, declarou que ‘precisamos combater fogo com fogo’. Para ser justo, a única coisa que sabemos sobre Gavin é que ele definitivamente não gosta de combater incêndios com água”, disse Trump.
O republicano ainda ridicularizou a ex-vice-presidente Kamala Harris (Partido Democrata), aliada do governador da Califórnia.
“A situação ficou ainda pior quando ele [Newson] afirmou, espontaneamente, que Kamala Harris era mais inteligente do que ele. Disse literalmente: ‘Kamala é mais inteligente do que eu’. Sinceramente, se Kamala Harris é mais inteligente do que alguém… Essa pessoa realmente tem um problema”, afirmou.
Além de Harris e Newsom, Trump mirou outros oponentes democratas. Ao falar sobre as lutas de UFC organizadas por ele na Casa Branca, o republicano ironizou o antecessor, Joe Biden.
“Antes de eu chegar à presidência, se alguém quisesse ver uma pessoa perder a consciência no gramado sul da Casa Branca, bastava fazer uma pergunta ao Joe Biden”, disse.
O republicano também ridicularizou o ex-presidente Barack Obama.
“Mas, geralmente, um comediante apresenta esse jantar. E acho que meio que mudamos isso. Houve uma ocasião específica em que Barack Hussein Obama foi o apresentador. Alguém sabe quem é ele?”, disse.
ATENTADO CONTRA TRUMP
A cerimônia prestou homenagem ao agente do Serviço Secreto Victor Gonzales, baleado no checkpoint de segurança fora do salão em abril. Gonzales usava colete à prova de balas e foi o único ferido naquela noite; é creditado por ter interrompido o ataque. Funcionários do Washington Hilton que auxiliaram os convidados durante o incidente também foram homenageados.
Trump aproveitou o discurso para defender a construção de um novo salão de eventos na Casa Branca, no local da antiga Ala Leste demolida. Descreveu o espaço como dotado de vidros à prova de balas e como parte de um complexo militar, com porto para drones no telhado. Sugeriu que o ataque de abril poderia ter sido evitado caso o evento tivesse sido realizado nesse novo espaço.
O jantar, que tradicionalmente é realizado no Arlington Hotel, foi deslocado para o hotel Waldorf Astoria, em Washington, por questões de segurança. Trump disse estar usando um colete a prova de balas.
Desta vez, a mulher do presidente, Melania Trump, e o vice-presidente JD Vance (Partido Republicano) não compareceram.
Em 25 de abril, um homem armado –posteriormente identificado como Cole Allen– tentou invadir o espaço onde o evento era realizado, no Washington Hilton Hotel, mas foi contido e detido por agentes do Serviço Secreto.
Leia abaixo o que se sabe:
- o que houve – um homem armado furou a barreira de segurança durante um evento com Trump, o Serviço Secreto reagiu e tiros foram disparados;
- o que era o evento – o tradicional jantar com os jornalistas setoristas na Casa Branca, realizado em 25 de abril de 2026 no Washington Hilton Hotel, na capital dos EUA, com o republicano, o 1º escalão do governo Trump, profissionais da mídia e convidados;
- Trump escoltado – assim que os tiros foram ouvidos, o Serviço Secreto retirou o republicano às pressas do jantar;
- “lobo solitário” – após o ataque, Trump falou a jornalistas e disse acreditar que Cole Allen agiu sozinho –ele também postou uma foto do homem em seu perfil nas redes sociais;
Em 11 de maio, Allen se declarou inocente das acusações de tentativa de assassinato do presidente. O atirador enfrenta múltiplas acusações criminais, incluindo tentativa de assassinato do presidente, agressão a um agente federal e crimes relacionados ao uso de armas de fogo.
O atirador, de 31 anos, morava na cidade de Torrance, na Califórnia, fez uma doação para a campanha da então candidata e vice-presidente Kamala Harris (Partido Democrata), em outubro de 2024. Registros da Comissão Eleitoral Federal indicam que ele doou US$ 25 (cerca de R$ 125) para o ActBlue, comitê de ação política que arrecada fundos para democratas.
JANTAR DE JORNALISTAS
O jantar foi organizado pela WHCA (“White House Correspondents Association”). A forma mais correta de traduzir o nome dessa entidade privada é “Associação dos Jornalistas que fazem a Cobertura da Casa Branca”. É que “correspondent”, em inglês, não pode ser traduzido como “correspondente”, em português. São falsos cognatos: palavras que têm etimologicamente uma origem comum, grafias quase idênticas, mas que evoluíram de forma diferente em determinados idiomas.
Nos EUA, um jornalista que atua num determinado setor para acompanhar um assunto do noticiário é chamado de “correspondent”. Dessa forma, há os “White House correspondents”, os “Pentagon correspondents”, os “Supreme Court correspondents”.
A WHCA foi criada por jornalistas em 25 de fevereiro de 1914, como resposta a uma declaração do então presidente dos EUA, Woodrow Wilson, que em 1913 disse que poderia acabar com a tradição de participar de entrevistas para jornalistas, pois “certos jornais vespertinos” (sem dizer quais) estariam publicando frases que ele considerava ter dado de forma reservada.
O 1º jantar anual da WHCA foi realizado em 7 de maio de 1921 no Arlington Hotel, na esquina da avenida Vermont com a rua L, em Washington. O então presidente dos EUA, Warren G. Harding, não foi ao evento. O 1º presidente norte-americano a participar do jantar foi Calvin Coolidge, em 1924.
Ao longo dos anos, o jantar anual da WHCA se tornou uma tradição do mundo político norte-americano, na capital do país. O local do evento muda de tempos em tempos. É sempre uma oportunidade para o presidente do país falar de maneira mais descontraída, ouvir e contar piadas.
Essas oportunidades são vistas como uma celebração da liberdade de expressão, um dos direitos mais populares no país e consagrado em 1791 pela 1ª emenda à Constituição dos EUA, que impede o Congresso de criar leis que limitem a liberdade de expressão, imprensa, reunião, religião e petição ao governo.
Além do chefe do Executivo, o encontro anual da WHCA teve a lista de convidados cada vez mais ampliada. Muitos integrantes da equipe de governo participam, bem como políticos dos 2 partidos mais relevantes dos EUA, o democrata e o republicano.
Donald Trump nunca havia participado desses jantares no seu 1º mandato (2017-2021) e, no sábado, 25 de abril de 2026, faria seu 1º discurso aos setoristas da Casa Branca como chefe do Executivo do país.




